domingo, 24 de abril de 2011

Tous illusion


O dia amanhecia, e só sabia disso porque o sol gritava pelas frestas, cortinas, janelas. Não sabia quem era, e enquanto tentava lembrar se lembrou que ninguém sabia de verdade, porra, caralho, filosofia barata fica, mas não lembro meu nome? Olhou pras persianas vermelhas que deixava o quarto todo parecendo fogo, e sentiu o fogo queimando na garganta, um vestígio violento de álcool.
Tentou lembrar como foi parar ali, olhou pro corpo estático ao lado do seu corpo estático, tava vivo? Tocou no braço, quente, muito quente, é , tava vivo. Percebeu pelo cabelo comprido e pela batom vermelho estampado na face, nas fronhas, que era uma mulher. Tentou levantar, o gosto na boca de conhaque, uísque e cachaça, meu Deus até cachaça, pensou enquanto ia pro banheiro vomitar. O banheiro ele soube onde ficava, não sabia quem era, onde estava, mas o banheiro soube onde ficava.
Enquanto vomitava lembrava de umas cenas de um filme que viu faz tempo e não lembrava o nome, uma mulher e um homem atirando um ao outro contra a parede, Jet'aime monamour o homem dizia, e a mulher ria, ria, dizia algo que ele não lembrava direito, algo como tous illusion mon cher, não sabia, não lembrava, e o atirava contra a parede de novo, gemidos, carências, água escorrendo pelo corpo de um de outro, e uma vontade de que escorresse também as dores, os medos, tudo que não servia mais. Ergueu a cabeça, olhou ao redor viu que não era um filme antigo, era sua vida.
Olhou pra mulher desgrenhada no quarto, lembrou do sorriso dela, teu sorriso brilha mais que as pedras do El dorado, lembrou que disse, teus olhos que tem o brilho de marte e júpiter juntos, lembrou que ouviu. Lembrou que um amigo de um amigo apresentou, e desde então nada de banda, nada de amigos, nada de si, só lembrava do sorriso dela e das luzes.
Isso nunca aconteceu, nunca antes sorrisos-pedras-do-Eldorado, nunca antes sussurros em francês, nunca esqueci meu nome, o delas sempre, o meu nunca. Falando nisso, qual meu nome porra? Como que esqueci ? Depois tatuo na perna pra não esquecer nunca mais, digo que é prova de amor pra mim mesmo. Pensou em acordar ela e perguntar, mas que patético, perguntar meu próprio nome.
Decidiu então ir embora, sem destino, sem saber de si, cantarolou caetano sem lenço sem documento e foi em direção a porta. Parou e olhou pra ela, tão linda, alguns anos a mais, ele via, não se importou, tanta humanidade naqueles cabelos desgranhados, tanta leveza naqueles traços finos, naquela cintura estreita, tanta força naquele olhar, e aquela ar de quem já sofreu o bastante pra não acreditar em qualquer ilusão, protegida pela dor. Nada disso ele soube na hora, só quis ficar, quis abraçar ela e falar que não, nem tudo é ilusão ma cherie.
Chegou a fechar a porta e dar um passo em direção a ela de novo, lembrou que não sabia nem o nome, e que ela merecia mais que alguém patético o suficiente pra esquecer o nome. Descubro e volto, pensou ao sair.
O barulho da porta a acordou, ela abriu os olhos, lembrou do garoto da noite passada, qual mesmo o nome? João, João Henrique, nomes de rei, lembrou que disse entre um drink e outro. Chegou a falar de amor, lembrou, ensaiou até um francês. Como é bonita a inocência de quem acha que pode dar certo, que alguma coisa nessa vida dá. Pensei que esse ficava ao menos até o café da manhã, disse em um sussurro antes de fechar as persianas e voltar a dormir.

24/04/2011

1 comentários:

Pinecone Stew disse...

Have a WONDERFUL weekend !!!

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