terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Corda bamba


Seja sensual, não demais ... seria vulgar , não de menos ... não quer ser uma puritana sem graça. Seja original, diferente, mas não bizarra. Seja feliz, mesmo que doa (ninguém se importa muito com nada além de si mesmo), e lembre-se sempre: não seja muito, não seja pouco. Seja inteligente, nada muito acentuado, nada de ser a nerd sabichona, mas inteligente sim, o suficiente pra não fazer ninguém passar vergonha, as pessoas não gostam de andar acompanhado de uma 'porta', pega mal, entende ?
Ah, e os atributos físicos então ? Tenha seios bonitos , não muito grandes , não muito pequenos , na medida. E isso vale pra barriga, pra bunda - acredite -, pra coxas , pra quadris, pra boca, pra QI. Tudo é passível de julgamento, tudo tem que estar na medida. Na medida de que ? - perguntam. Do que estabeleceram - respondo. Quem estabeleceu? - perguntam. Não faço a menor idéia - encerro.
Variando de lugar pra lugar , de sociedade pra sociedade e , ocasionalmente, de indivíduo pra indivíduo, os estereótipos se formam e de repente são uma exigência, pressupõe-se que você seja inteligente, engraçada, simpática e bonita, tudo na medida certa, na quantidade suficiente e ai de você se não for.
A verdade é que todos nós dessa sociedade manicomial, desse grande circo sem muita graça, andamos na corda bamba. Na busca de uma aparência perfeita, de um amor perfeito (pros poucos que ainda acreditam) , de um relacionamento perfeito, de uma carreira perfeita... e assim vai. Uma sociedade que se veste de democracia, se enfeita de um falso respeito à diferença e se cobre de um moralismo hipócrita, é nessa sociedade que vivemos, é isso que criamos. Um mundo em que tem de tudo em abundância, menos verdade.

Clara Delfino

Oi pessoas (que eu não sei se realmente existem),

Me deu vontade de retomar esse blog que já tinha ficado esquecido num cantinho da minha memória , enfim , aqui estou. Primeiro talvez seja bom explicar porque eu abandonei , porque eu sumi . Entre milhares de provas , e aulas , e festas , e coisas - das mais variadas possíveis - ficou difícil manter qualquer vida 'virtual', o único que eu ainda manti foi o fotolog , acho que mais pela possibilidade de ser um registro dos dias loucos , lindos e passageiros (como todos os outros) que vivi . Enfim , agora eu tô de férias e essa desculpa não deveria caber tanto , mas ainda cabe muito , me sobra muito pouco tempo pra tudo que eu quero assistir, ler , escrever, falar, fazer , mas vou tentando , quem sabe eu consigo ? O outro motivo, e esse pra mim sempre foi muito digno e válido, mas hoje me parece bem idiota, é que meus textos quase sempre falaram sobre amor (ou desamor, como diria a Yasmin) e eu cansei, cansei de ficar pegando um filete de sofrimento e transformando em pequenas cartas suicidas, cansei de culpar pessoas, e principalmente, cansei de me culpar. Há tanta coisa melhor pra fazer , eu descobri que há. Então aconteceu uma coisa estranha, quando eu fiquei longe desse drama todo, desse chororô todo, ele também passou a querer distância de mim, e daí me descobri feliz de novo. É fantástico o que descobri com isso, fantástico e óbvio : medo tem medo de coragem. Enquanto eu tinha medo do medo ele se fortalecia, quando eu fui indiferente ele deixou de existir. Outra coisa legal que aprendi nesse tempo... é que (quase todos) sentimentos só existem se nós permitimos, o que é fantástico. Ontem eu li uma frase que falava disso... Nós, os humanos, temos essa horrível e maravilhosa capacidade de sofrer pelo que não existe, do Rubem Alves , acho que foi isso que eu fiz , me apeguei tanto a uma dor que nem existia que um dia acabei por perceber que estava agarrada ao nada, e percebi ainda mais ... que fazia isso por puro tédio, por puro medo (again) de não sentir mais nada. Eu não imaginei que esse texto ia por esse caminho mas , whatever, eu vim aqui pra dizer que mudei - completamente - a temática desse blog , ainda escrevo (muito raramente) textos de amor e (e muito mais raramente) de desamor, mas eles não me interessam muito, e se aparecerem por aqui serão minoria. Basicamente isso aqui vai ser pra eu registrar uns pensamentos grandes que andam me ocorrendo, no ritmo que eu ando mudando seria bom um registro de algumas das coisas que passam pela minha mente e vida. Não sei se alguém vai ler e, sinceramente, não me importa tanto assim, é mais uma forma de falar o que não cabe no silêncio, e que me sufocaria se eu não falasse, tenho medo de sufocar no que não foi dito. Enfim , já tô ficando literária demais again, melhor encerrar por aqui. A esse respeito... eu não vou medir muito minhas palavras então, se incomodar a alguém faça-se o favor de parar de ler e viver sua vida.

Enfim, ciao.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

faxina

Hoje andei revendo meus conceitos , dando uma atenção mínima a essa bagunça que tá dentro de mim, a essa soma de sentimentos confusos e contraditórios que acabam por se anular, sem de nada me servir . Olhei cada pequeno amor , e vi que nem coladoumnooutro iam me fazer alguma diferença , e já que não me acrescenta eu descarto né ? É, é melhor, é como aquele livro que eu sei que nunca vou ler, simplesmente porque não me conquista pela capa e prefácio, é como aquele cantor que não importa as indicações, eu não vou baixar, não é o momento. Olhei um outro tipo de amor, o próprio, o que me ajuda no momento em que o espelho me critica , o que me levanta quando eu deixo um dos amores pequenos ficar maior que eu, me engolir e me maltratar, que amor feliz é esse! Que amor raro de se ter ! Por isso eu arrumei um espaço grande pra esse que ignorei por tanto tempo. No meio de todos aqueles textos e sentimentos amotoados eu não consegui deixar de ver uma espécie de bicho-papão encolhido no canto da sala , não precisei pensar pra reconhecer , era o medo . Olhei pra ele com atenção, ele olhou pra mim, me implorando pra ficar, me disse que sempre me serviu, sempre me ajudou, chegou até a dizer que me trouxe até aqui. O olhar dele dava pena, revirei umas fotos de um álbum que tava na minha mão e olhei praqueles sorrisos, praquelas festas e abraços e beijos e noites inesquecíveis, olhei pra ele de novo , olhei de volta pras fotos, ele não estava lá , e fazia todo sentido , por que ele estaria ? Se esse tempo todos se me barrou, só me impediu de arriscar, de viver, de ser feliz . Me aproximei como se fosse lhe abraçar, e disso serviu o mínimo estoque de falsidade que eu tinha, o segurei pela nuca e o joguei pela janela , do último andar de mim, e que a queda seja dolorosa. É , por ora me sinto mais organizada sim, vejo a felicidade flutuando por aí e tenho certeza que fiz um bom trabalho . Depois eu volto pra matar a saudade, ela que se prepare.

clara delfino

domingo, 24 de outubro de 2010

À Pátria Amada

Salve, salve. Como está? Melhorou?As notícias que recebo de seus filhos não são boas, mas sei que você é forte e há de vencer mais essa. Tantas crises e traições seguidas devem estar abalando você, mas saiba que é amada, idolatrada e jamais será abandonada.Pátria minha, posso ser sincera com você?Você é rica, gentil e generosa, mas dá muita bandeira, por isso abusam da sua boa vontade. Aproveitadores prometem servi-la e roubam de seus cofres. Covardes juram protegê-la e atiram em sua gente pelas costas. Falam besteiras em seu nome, debocham de seus defeitos, sonegam o que lhe devem.Por outro lado, você nunca esteve tão livre. Tão respeitada pelas colegas. Sua beleza e sua simpatia sempre foram reconhecidas, mas agora elogiam também sua inteligência e seu bom gosto. Copiam o que você veste, querem saber a fonte da sua energia, até depilam-se à sua maneira.Portanto, querida, talvez seu problema seja mesmo de auto-estima. Você é virginiana, de 7 de setembro, certo? Então está sempre desconfiada e insegura. Não consegue tomar decisões e, muitas vezes, foge às responsabilidades.Assuma, Pátria, que você é legal, mas vacila. Aprenda a punir quem abusa de seus favores e a tratar bem quem procura seus serviços. Afaste-se dos puxa-sacos e abrace seus desvalidos. Seus verdadeiros amigos não estão nos banquetes em sua honra, mas nos bobocas que calçam chuteira com você. A hipocrisia, maldita praga que seu ardor atrai, é a raiz dos seus problemas.Mas, calma, tudo tem jeito, você já resistiu bravamente a dias piores. Quando nem se sabia quanto roubavam de você. Quando sujavam seu nome em porões de tortura. Quando seu dinheiro valia tão pouco que era motivo de piada.E hoje, Pátria, você não carece de grandes atos de heroísmo, mas de pequenos gestos de respeito. Não precisa de novos salvadores, mas dos velhos sobreviventes. Inspire-nos a ver que não somos coitadinhos, somos até sortudos. Vemos tornados, terremotos e bombas terroristas pela televisão. Moramos de frente para a praia, com o mais verde quintal do mundo. Se temos a corrupção como mal encruado, que seja essa a nossa luta. A grande batalha que venceremos em seu nome.Freud disse: "Primeiro, olhe bem as profundezas da sua alma e aprenda a saber quem você é; depois, entenda o que há de errado com você". Cazuza fez uma música dizendo a mesma coisa, lembra?Por mim, você abandonava de vez esse positivismo cafona, que um dia lhe impuseram como lema. Não é pela ordem que seus filhos se destacam pelo mundo, é pela bagunça e festa. O progresso? Vem naturalmente quando se vive em paz, num ambiente fértil. Se é necessário um mote para completar a lacuna, que o escolham de onde sua alma se manifesta: nos pára-choques de caminhão.Já imaginou? Você de verde e amarelo e, na faixa, em sua testa estrelada, escrito assim: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho". Ou simplesmente: "Existo porque insisto". É atrás da pompa dos palanques que se escondem seus inimigos.

Com amor, Fernanda Young

terça-feira, 5 de outubro de 2010

-


Você me treinou tão bem . Todos aqueles jantares à luz de velas sozinha , todas aquelas viagens com apenas o fone de ouvido de companhia , todos aqueles planos adiados para talvez , para nunca , todos aqueles sonhos que você não me deixou sonhar . Todas as cartas que te escrevi fazendo o percurso curto e doloroso do meu caderno até a lata do lixo , isso é besteira , você ia dizer .

Tava bem claro , todas aquelas tuas conversas indiferentes , finais , premonitórias . Estava escrito que seria assim , você escreveu . E não serviu , toda sua frieza , indiferença e egoísmo não me afastaram , todo o treinamento se mostrou inútil .

Sinto sua falta como se você fosse presente antes de partir , como se as cartas tivessem sido entregues , as canções ouvidas , as palavras ditas . Teu treinamento não só não serviu como teve efeito contrário , tua ausência é tão concreta que já não é , você tá mais presente do que jamais foi , tua falta não me abandona mais .

Clara Delfino

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

só


Eu só quero alguém que pense em mim antes de dormir , e antes de acordar , e antes de sorrir e antes de querer . Cansei de meios-amores , de relacionamentos não classificáveis , de amizades com desejo , e amores com companheirismo , cansei de perguntas , quero respostas , e não me venha com a verdade é relativa ou outro qualquer pensamento hipócrita , quero coisas concretas e quero agora . Eu só quero alguém que olhe nos meus olhos e não precise dizer mais nada , mas mesmo assim diga , alguém que me tire desse caos , alguém que me faça sentir especial , quero alguém que me tire o fôlego , e que não precise se esforçar pra isso , alguém que me estremeça a alma , alguém que entenda minha urgência de vida , alguém que me dê um ombro pra chorar , uma boca pra beijar e um motivo pra existir .
Clara Delfino

domingo, 3 de outubro de 2010

Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.

uma cena qualquer

Sábado de manhã , longa noite de sexta , noite que não acabou . Um homem e uma mulher sentados numa mesa de uma lanchonete qualquer , depois de ter passado a noite sentado em outra mesa de um bar qualquer . Palavras trocadas . Ela se irrita , se levanta , o estapeia - não como cena de filme , entenda bem , ela lhe deu aquele tapa com a mínima elegância e dignidade que a raiva dela lhe permitiu - e sai . Silêncio . Ela pega um táxi , lágrimas escorrendo , maquiagem manchada , último trocado gasto naquilo , que noite horrível . Ele continua sentado , imóvel , indiferente , ela e mais uma a caminho do banheiro , foi uma noite razoável , faz os cálculos , nem gastou tanto . Ela chega em casa , não consegue colocar a chave na fechadura , treme , de raiva , de amor , de ódio . Ele chama um garçom , mais uma dose , olha pras pessoas da mesa , começa a falar de política . Ela entra , joga o salto pra um canto e chora , amargamente , sente que vai passar o dia todo assim , sente certo . Ele combina de ir pra uma chácara mais tarde , muitas mulheres , ouviu falar . Ela o ama - nunca ouviu falar de amor próprio , talvez em um daqueles livros auto-ajuda que tem ? não sabe , prestou atenção não - ele se ama - nunca ouviu falar de amor .

Clara Delfino

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Epitáfio Para o Século XX

1. Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.
2. Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.
3. Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
– nux vômica.
4. Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado, empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.
5. Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.
6. Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.
7. Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas, sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.
8. Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.
9. Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
– já vai tarde.
10. Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.
11. Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
– modernos medievais –
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
per seculae seculorum.

Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

algo me diz ;

Eu preciso muito, muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você.

Caiozinho s2

A impressão que tenho é que nunca vai passar. Que a cicatriz não fecha. Que só de esbarrar, sangra.

Caiozinho s2

algo me diz que fecha , que a cicatriz fecha sim , algo me diz que eu não estou e não estarei condenada a passar a vida toda com medo do esbarrão , com medo de alguém tocar mais fundo , algo me diz que as tempestades passam , podem virar dilúvios ou eras do gelo , mas passam , um dia passam .

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

artigo definido ;


Você sabe que poderia ser mais ? Você sabe que poderia ser tudo ? O motivo dos meus sorrisos , a relevância em cada música , as batidas violentas e reveladoras do meu coração ? Meu sorriso mais bonito , meu olhar mais profundo , meu sentimento mais sincero , eu te daria sem hesitar , Acariciaria teu rosto , te faria cafuné , roubaria tuas lágrimas , devolveria em sorrisos .
Você poderia ser meu sol , eu tua inspiração , nós seríamos bons juntos , você com sua calma , seu silêncio oportuno , sua paz , e eu assim mesmo , imperfeita , inconstante , impulsiva . Poderíamos nos completar de alguma forma , talvez você não veja , mas poderíamos .
Quero que deixes de ser assim , artigo indefinido e passe a ser artigo definido , pronome possessivo . Um garoto , o garoto , meu garoto . Meu amor . Quero transformar o verbo querer em tantos outros ... poder , ver , te ter . Te transformar em complemento-nominal-verbal-real, o que te trouxer pra mim . Vem comigo ? Me ajuda a consertar a gramática , a achar um sentido , a encontrar abrigo .

Clara Delfino

...




Peyton: Brooke, sinto muito. Eu sei que você ainda sente alguma coisa pelo Lucas.
Brooke: Sentimento-fantasma. Tipo, quando se perde a perna, mas tenta coçar. O Lucas é a minha perna que gangrenou e foi amputada.

nossa esperança

HAMBURGO, 11 DE OUTUBRO DE 1994

Sei que é uma ousadia dirigir-me ao senhor assim, desta maneira meio estabanada. Aprendi na escola, há tantos anos que já esqueci, que deveria dirigir-me ao senhor como "Vossa Excelência" ou algo assim. Mas hoje, ao despertar muito cedo neste Hotel Schwanenwik, que parece saído de um filme dos anos 40, espiando pela janela as árvores começando a ficar douradas no parque em frente ao lago, me surpreendi pensando com força e fé no senhor e no Brasil.
Nos últimos dias, li nos jornais europeus que o senhor foi eleito sem necessidade de um segundo turno. Não votei no senhor. Aliás, não votei em ninguém. Estava em trânsito, em Porto Alegre, e embarquei para Frankfurt um dia após as eleições, quando a sua vitória já era dada como certa. E embora talvez o senhor não fosse meu candidato, fico feliz. Devo dizer que o senhor me parece muitíssimo mais, digamos, preparado, que todos os outros seus antecessores. Amigos europeus e desconhecidos que fazem perguntas nas leituras e debates que ando fazendo por aqui com outros escritores também parecem pensar o mesmo. Por favor, não nos decepcione.
É grande a nossa esperança, senhor presidente. E falo não como escritor ou jornalista, mas como brasileiro comum. Tão comum que nada tenho e, nos últimos anos, não fosse direitos autorais vindos do estrangeiro e a lealdade de muitos amigos, estria desempregado e passando dificuldades. Porque ando pelas ruas, porque entro nos bares e vejo as caras sofridas das pessoas pelas esquinas, posso dizer ao senhor com segurança: estamos cansados, senhor presidente. E é no senhor que confiamos, acima de tudo, para dar jeito nesse grande cansaço que já vem de anos.
Vem do golpe militar que cortou os sonhos de uma geração inteira; vem daquela morte misteriosa de Tancredo Neves; vem do desastre de José Sarney e principalmente da vergonhosa catástrofe que foi Fernando Collor.

Vem de muito antes disso, talvez desde que os colonizadores mataram nossos índios, dizimaram nossas matas, levaram nosso ouro. Há quase 500 anos, sempre fomos escravos, roubados, humilhados. Nos últimos tempos esse cansaço nosso aumentou, com a impunidade dos corruptos e o empreguismo fácil que se tornou a política. Os senhores ganham muito bem, senhor presidente, e a maioria de nós morre de fome.
O que quero pedir, quando penso no senhor, olhando pela janela aberta desta cidade estrangeira, não tem nada de extraordinário. Nós queremos comida, senhor presidente. Queremos trabalho, escolas. Queremos saúde e um mínimo de segurança para andarmos nas ruas sem o risco de sermos atingidos por alguma bala perdida. Queremos um mínimo de honestidade, e esperamos que o senhor reforce a nossa auto-estima como brasileiros, não através de um nacionalismo irracional e perigoso, mas apenas por termos satisfeitas as nossas necessidades humanas básicas.
Por favor, não gaste à toa o dinheiro dos nossos impostos. Por favor, preste atenção na infinidade de mendigos que apodrecem pelas ruas de nossas cidades. Não queremos ser o Haiti nem Ruanda, mas apenas um país decente. E temos medo enorme que logo após a sua posse, esse Plano Real que tanto ajudou a elegê-lo, desabe sobre nossas cabeças com uma inflação de 100% ao mês. Estamos tão cansados de mentiras, promessas, aparências, fraudes, ilusões. Nós queremos gostar do senhor, senhor presidente, queremos tanto confiar no senhor. Nós entregamos os nossos destinos nas suas mãos, com boa fé e boa vontade.
E é por tudo isso e muito mais que, daqui de muito longe, quase na Escandinávia, tenho a ousadia de concluir pedindo: pense bem, senhor presidente, no que vai fazer com as nossas vidas. Pode ser bom, isso a ser feito, pode ser nobre e grandioso. Depende um pouco de nós, que temos sido tão pacientes, mas depende principalmente do senhor. Seja justo, honesto, amoroso. Boa sorte.

O Estado de S. Paulo, 16/10/1994

Caiozinho s2


vocês não acham uma pena que isso não tenha se concretizado ? vocês não acham que deviam pensar bem pra que uma frustração tão bela e triste como essa não se repita ? você já pensou sobre domingo ?

Esse poço tem fundo ?

Houve um tempo em que se ensinava às crianças que, se a gente furasse um poço dias e dias e anos e anos a fio, chegaríamos ao Japão (ou era China que diziam?) e estaríamos no meio de crianças orientais de olhos puxados e costumes muito diferentes. Menina de cidade do interior, só conheci a maravilhosa cultura oriental muitos anos depois.

Adulta, descobri que a vida tem outros poços, nem todos divertidos. Um deles agora se afunda como se não tivesse chão: o poço dos escândalos nossos de cada dia, o poço da nossa desolação e dos nossos enganos. Percebo que, a pior das situações, raras pessoas ainda se dão ao trabalho de se preocupar de verdade. A maioria, talvez para suportar tantos desencantos, dá de ombros dizendo que é isso mesmo, as coisas são assim, no Brasil é assim, no mundo inteiro está ficando assim, e afinal "não tem problema".

Propriedades produtivas são invadidas sob proteção não se sabe de quem: ninguém parece fazer nada. Congressistas e senadores fazem farras inimagináveis quando ainda acreditávamos neles: não tem problema. Mensaleiros continuam sendo processados, mas não sei que tenham perdido a honra, ou vivam execrados. Agora, no Supremo Tribunal do país, ministros batem boca diante de telespectadores atônitos: parece que perdemos o último baluarte da nossa esperança.
Mas fiquem tranquilos, não tem problema.

Não devemos nos espantar com a generalizada quebra de autoridade. Tudo numa boa, por aqui é assim. Sem stress, que dá rugas, sem exageros, que a gente vira um chato. Que povo estamos nos tornando? Ignoramos essas circunstâncias, que agora não são apenas corrupção escancarada e impune, mas falta de compostura de quem era a última instância de nossa vida problemática, derradeira inspiração para a desorientada juventude nossa. Mas não ignoramos por sermos ignorantes, e sim porque nos dizem que está tudo numa boa, e não adianta reclamar. A gente se acomoda, se distrai, olha para o outro lado, porque a capacidade de reagir nos foi lentamente, subliminarmente, retirada. Não por sermos um povo acomodado ou superficial, mas mergulhado num estado geral de desinteresse – e isso contagia feito uma nova doença, uma gripe de derrotados nem sempre suínos. Algo negativo e sombrio perpassa este país, e nem os trios elétricos nem zabumbas nem carnavais ou belas danças típicas do interior conseguem disfarçar.

É frágil uma democracia na qual pobres e ricos, jovens e velhos, reagem com um dar de ombros quando se fala nesses desmandos, nesses abusos, nessas verdadeiras loucuras – as que sabemos e as piores, que ainda ignoramos. (Pois, quanto à chamada farra das passagens, dizem os que sabem das coisas que o pior vai permanecer oculto, não por último para preservar, em alguns casos, a solidez da santa família brasileira.) A gente ou sabe ou imagina, e comenta como se fosse engraçado: quem ainda acredita nos políticos? Quem ainda tem fé nas instituições? Olhe só o que está acontecendo por aí, e nem é de hoje. Nem vai se corrigir, ao contrário: cada vez aparece algo mais sério, mais sinistro, objeto de reais ou falsas investigações tantas vezes desfocadas e ineficientes, ou aparentemente rigorosas. Sentimos uma lufada de otimismo, agora, sim, a coisa vai endireitar... mas logo se desfaz diante do comentário que vem do alto: tudo resolvido, não tem problema.

Tem problema. Tem muito problema. Não é normal, não é assim o Brasil, não são assim os brasileiros. A falta de autoridade de tantos líderes contamina feito uma gosma escura, uma doença maligna corroendo a decência neste país, tirando-nos discernimento e capacidade de julgar. Fingimos não saber, fingimos nem ligar. Aos mais simples, como às crianças e jovenzinhos, é repetido que está tudo bem, tudo em ordem. "Não tem problema." Assim, descrentes e céticos, protegem-se com um precoce cinismo, que afinal é um jeito (pobre) de sobreviver na selva moral.



Lya Luft

Aquarelas

Hoje não , não quero almas pequenas , não quero abraços falsos , propaganda eleitoral , chuchu e noticiários tristes , nada disso quero hoje . Pessoas que machucam , coisas que acinzentam coisas , desculpas inventadas , gente infeliz que só sorri , tanques de guerra , tudo isso , vá pra longe de mim . E aquela TV , que além de não esconder minha solidão diminui meu QI , não precisa trazer de volta , deixe aí . Eu quero o sorriso da criança , o que sei que está voltado pra mim e não pros cifrões . Quero a luz do sol , que ilumina qualquer um apesar dos seus lotes de dor e culpa ,quem sabe não ilumine assim , sem distinção , exatamente por isso . Eu quero marshmelow com chocolate , quero cores , aquarelas , laços , abraços . Reinventar a palavra viver . Aprender todos os dias o significado de amar . E seguir assim , caminhando , sem perceber a existência do caminho .

Clara Delfino

Cansei


Eu cansei . Desde o primeiro olhar isso já tava claro , era uma questão de tempo , um tempo que já se foi . Se foi como as certezas que eu tinha , se foi como o bem que você me fazia , se foi como a tua ausência . Tua ausência , já nem lembro dela , é estranho ... eu sempre pensei que ela desapareceria quando você estivesse ao meu lado , mas foi muito antes , afinal , você nunca esteve e ela já se foi . Ela sumiu com o afeto que não foi dado , com as promessas que não foram cumpridas , com essa coisa toda que não foi , com um você e eu , que já não somos nós .

Clara Delfino

seu rosto é mais bonito rindo ...

pré-nada ;

Sou minha demais pra ser de alguém.Geralmente há um período em que eu finjo que não sei, que só é pré de uma coisa que não vai ser, um pré-fim. E ai tudo fica lindo, as palavras mais bonitas são ditas, os sentimentos mais bonitos são vividos. Viver sentimentos não concretizados, não-reais, sou uma multiplicação de quases, sou a própria caixa-de-pandora . Como eu já disse, há o pré-coisa-que-não-vai-ser, há o embaçado que não me deixa enxergar o que vem depois do pré, e de repente... nada. Chamo essa parte de luz negra, aquele tipo de visão que você não quer ver, a iluminação que traz escuridão. E daí sofro, escrevo, choro, ou não, nem choro mais , meus olhos se recusam a obedecer a tonta que os embaçou, que os condenou a miopia de ver um futuro onde não havia nada. Depois supero, hipoteticamente, e ganho aquela postura de Mulher-Interessante-que-já-sofreu-por-Amor e de bônus aquele discurso de não-caio-mais-nas-armadilhas-do-Amor. Ai vem um outro alguém e eu me pergunto será-que-agora-vai? E de novo me iludo e de novo esqueço que não-vai-dar-em-nada, e de novo amo.

Clara Delfino

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Estagnada


Eu não pensei que seria assim , eu não imaginei nem no pior dos pesadelos que seria assim . Você se perdeu de mim . Hoje eu não sei mais nada sobre ti , às vezes penso que nunca soube , que nunca saberei , às vezes tenho certeza . Mas o que dói , o que maltrata , o que machuca , é a gente ter se perdido . Não sei dos teus dias , das tuas dores , dos teus amores , dos teus sonhos , teus defeitos . Sinto falta até deles . Sinto falta do arrepio involuntário que me percorria o corpo ao ver teu nome , ele ainda ocorre , é verdade , mas teu nome aparece tão pouco ...

Sinto falta da vida que você injetava na minha vida , sinto falta dos sorrisos que em escapavam pelas bobagens que em dizias , e da revolta que em dava por ser sempre tão vulnerável , tão fácil , tão tua . Sinto falta até da falta que eu sentia , da saudade velada , do sentimento camuflado .

Eu não pensei que seria assim , esse vazio tão absurdamente intenso , essa incapacidade de sentir o que senti quando ainda havias tú , e o sonho de um nós . Me sinto estagnada naquele adeus , parada na estrada te vendo sumir , seguir em frente , sem olhar pra trás , mas eu não , eu nem me movo , continuo lá a te olhar , esperando você voltar e devolver essa parte toda que levou de mim .

Clara Delfino

por mais que doa


Você não precisa se explicar, talvez eu esteja bem demais sozinha – e, quem sabe o destino quis assim mesmo – as nossas conversas ficaram para trás, e o seu sorriso? Só os restos mortais dele sobraram, quem sabe era de ser dessa forma, quem sabe deveríamos ter esse mesmo final infeliz que tivemos. Estamos muito bem separados, por mais que você ainda seja meu vizinho nos sonhos, por mais que eu ainda grite que te amo sem que nenhuma palavra seja ouvida, por mais que eu ainda deseje você aqui como sempre foi e talvez sempre será. Não existem explicações, nenhuma silaba a mais será pronunciada, você declarou um fim e se é assim que tem de ser, eu aceito. Me recuso a te machucar mais uma vez, ou quebrar a cara na próxima esquina. Me recuso a ser quem você não quer...
Mas, se ainda serve...se você ainda consegue ler todas as minhas palavras e ver qualquer sentimento nelas, ou se ainda tem dúvidas. Quando eu digo que amo você mesmo que seja pouco, na verdade é muito.

- Eu te amo, bem pouco, só para não perder o costume. E, sabe, eu ainda acredito em você – por mais que doa.

um palhaço do amor

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

everything

http://www.youtube.com/watch?v=lSwCOs-uXzU

sábado, 18 de setembro de 2010

mais nada ;

Trata-se de uma decepção diferente: não penso obsessivamente, não tenho vontade nenhuma de ligar nem de escrever cartas, não tenho ódio nem vontade de chorar. Em compensação também não tenho vontade de mais nada.

#seidequeménão

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Uma rosa


Um grito , e tudo mudou . Um único grito , e seu mundo fantasiado de vida-politicamente-correta-e-feliz ruiu . Ali naquela tarde ensolarada de março , naquele calor escaldante , naquele trânsito infernal , ela sentiu todo o seu corpo estremecer ao ver o que seus olhos viam . Um carro a direita do seu , que , tinha uma chance absurda de ser o seu bateu em uma menininha , que se apressava com a mãe pra ir a escola , o carro tava com o direito , é verdade . Mas a menininha acenou , parecia ter um super poder , parecia acreditar que o homem do carro entenderia que ela realmente tava atrasada pra aula e que a mãe dela tava irritada , e triste demais ultimamente , e que ela não queria mais que ela chorasse de noite , que ela queria ser boa o suficiente pra fazer ela feliz , ela achava que aquela rosa que ela pegou no caminho da escola , e que não teve tempo de entregar a mãe ia fazer a diferença , ela não entendia que não era culpa dela , e que não podia mudar nada , ela não entendia que o homem do carro não podia entender isso , nem nada . Ela não entendia o quão cego alguém que vê pode ser . Então ela acenou , e o homem do carro , afundado nos seus próprios problemas adultos e grandiosos , sempre grandiosos , estava cego pra tudo que ele não achasse grandioso , estava cego pra qualquer aceno , qualquer beleza , qualquer magia .

E ela , a mulher do carro do lado , que poderia ter sido o seu , observava com choque a poça de sangue em que se afundava a menininha , observava o desespero da mãe dela , e depois , não , por não ter o que olhar , mas por se sentir atraída a olhar pra’li , observava o sol , o sol nos cacos de vidro , o sol dos cacos de vidro , e não tinha mais como desviar . Havia uma menina , e uma rosa , e uma esperança , e agora só há o vermelho , a imensidão que ele pode ter . Agora só há a intensidade de um grito , cacos de sol , e uma rosa que de rosa passou a pingar vermelho .

sem título

Eu cansei . Desde o primeiro olhar isso já tava claro , era uma questão de tempo , um tempo que já se foi . Se foi como as certezas que eu tinha , se foi como o bem que você me fazia , se foi como a tua ausência . Tua ausência , já nem lembro dela , é estranho ... eu sempre pensei que ela desapareceria quando você estivesse ao meu lado , mas foi muito antes , afinal , você nunca esteve e ela já se foi . Ela sumiu com o afeto que não foi dado , com as promessas que não foram cumpridas , com essa coisa toda que não foi , com um você e eu , que já não somos nós .

domingo, 12 de setembro de 2010

Distração, atração .


Ela estava sentada , em frente aquela quadra de basquete , sentindo a brisa que vinha de todos os lados e sentindo os olhares que também vinham de todos os lados , olhares aos quais ela não estava acostumada , mas que estavam cada vez mais presentes , acabava por se distrair com uma árvore , uma nuvem , uma brisa qualquer , só pra não ter que encarar um deles , se vigiava , não podia se distrair da sua distração , não podia esquecer de se esquecer no meio a aqueles quase alguma coisa . E então ele passou , e de repente a brisa mudou de rumo e ela não teve como se perder , e acabou por se prender , no olhar dele que encontrou o dela , e não havia distração que a distraísse daquele olhar , que se mostrou mais real , e mais intenso que todas aquelas não-coisas onde ela procurava se esconder . Ela desviou o olhar por um instante , e de novo se viu a olhar pra aquele corpo moreno que lhe olhava com uma intensidade que há muito não sentia , e de repente não conseguiu desviar , se viu presa naquele corpo cheio de formas e formatos , com traços definidos , com um olhar arrasador , um olhar que não lhe convidava a declarações de amor , ou a frases feitas , mas lhe despertava sentidos animais , e humanos . E de repente a brisa não bastou , todos os outros olhares não existiam , as nuvens , as melodias ,e todo o resto sumiu . Só havia ela , ele , e aquele olhar que lhe dizia mais do que tudo que já foi dito .

sábado, 11 de setembro de 2010

no domingo dói mais ainda ;

Vou fugir. Vou desistir. Não sei ficar nas mãos de alguém. Sou estranha mesmo, nunca escondi. Quando você achar que estou feliz, estarei me magoando aos poucos. A verdade é que eu não sei ser feliz. E sou orgulhosa e teimosa e impaciente demais para aprender. Eu só sei viver amores que não dão certo. Se você soubesse o que as palavras significam para mim. Pra mim é tudo muito grave. Sou uma desesperada. O que você diz brincando, ou que acha que eu nem prestei atenção, é justamente o que eu nunca vou esquecer. Minha sensibilidade e minha memória são meus piores castigos. Eu sempre vou querer mais. Meu amor é como uma raiz estrangulante. Minha carência não tem fim. Você sabe que eu odeio domingos, e eu odeio me sentir sozinha, principalmente quando o céu já está dessa cor. Dói, e dói muito. Você chega invadindo minha solidão, entrando na minha vida, fazendo eu acreditar que o amor é bom. Mas vai embora enquanto o que eu mais queria era que você ficasse. Você vai embora e me deixa com fome, com sede, incompleta, confusa, despedaçada. Com raiva por ser dependente. Não gosto de me sentir assim. Eu não sei amar, entende? Eu sei é ficar esperando um amor que nunca chega. Não sei o que fazer com um amor real que vem, bagunça meu ordenado caos conhecido, e vai embora. Tenho vergonha de dizer que preciso de ti. Me despedi com um sorriso casual, como se não estivesse me importando. Mas virei as costas já com raiva de mim mesma, porque sei que meu amor é doentio. E tenho de escondê-lo como se fosse um vício, um defeito grave, um distúrbio alimentar. Se eu não tivesse conseguido me conter, teria me ajoelhado na tua frente, agarrado tuas pernas e entre lágrimas e soluços, teria dito "fica, fica. Fica comigo, por favor não vai embora agora, que tenho medo de ficar sozinha, porque quando fico sozinha num entardecer nublado e frio de domingo tenho vontade de desistir de tudo. Fica agora, eu estou pedindo. Só vai embora quando esse aperto no meu peito passar." Mas eu não disse, e você foi embora achando que eu fiquei bem. Você disse que tem medo de me perder. E você vai me perder. Porque eu não vou deixar você me conhecer direito. Porque não quero te mostrar a imensa cratera que trago aqui dentro. Que nem você nem ninguém vão conseguir preencher. Não sei amar, mas te amo. Mas sinto como se teu amor não me bastasse. A tua falta me faz mal. E entre pouco e nada, fico com aquilo que não dói tanto. Mas espera! Volta. Adivinha meus pensamentos destrutivos e volta. Me impede de desisitir. Vem e me sufoca com o teu amor, e não me deixa morrer assim, aos poucos, tão sozinha, nessa noite de domingo.

domingo, 6 de junho de 2010

esboço

Sabe , eu posso viver sem você , posso até ficar bem sem você . Mas nunca é nada muito relevante , as cores são sempre naquele tom cinza , as flores estão sempre murchando , e o cheiro delas já não me encanta mais , comidas sempre com aquele gosto insosso de doença , bebidas sempre sinônimo de água . Os sonhos se vão , durmo só pra passar o tempo , e tenho um pensamento (bem típico de gente medíocre) de que sonhar acordado é perca de tempo ... vai ver é .

Viver sem você não é difícil , é só eu me concentrar em respirar . Mas me livrar do tédio sem você é praticamente impossível ... mesmas piadas , mesmos rostos , mesmas melodias , mesmos sentimentos . Nada invento , nada vivo . É como viver no piloto automático e ter medo de olhar pra trás e ver que se perdeu pelo caminho , ver que só restou o automático , vê que não há mais sentido .

Você sempre foi minha inspiração , seja pros mais lindos versos de amor , seja pros mais lindos versos de ódio . Sem você sou um pobre poeta com um livro cheio de poemas rasurados por lágrimas , com uma caneta na mão , e sem a mínima vontade de escrever . Olhando pra caneta como quem procura a tinta , olhando pro espelho como quem procura a vida . Sem você sou apenas um borrão do que fui e um esboço do que poderia ser . Sem você não sou muito mais que minha sombra .

dose de infinito

Ler um livro , escutar uma boa música , beber uma dose de uísque , daquele envelhecido , daquele com sabor . Olhar o pôr do sol podendo absorver cada detalhe da maravilha que ele é . Passear a tarde pela orla da praia , sentir o vento tocar o rosto . Sonhar . Viver . Tudo isso eu poderia fazer sem você , ser sozinha não é ruim quando ao menos se aceita a própria companhia , mas não vou mentir ... seria tão melhor se fosse com você . Porque aí cada pôr do sol , cada música , cada dose , cada livro , cada momento , ia ser mais especial , ia ter uma dose absurda do eterno , do infinito , porque momentos com você nunca seriam esquecidos .

Me convence que você é o cara pra mim , me convence do que eu já sei .

domingo, 30 de maio de 2010

escolha ;

Chega uma hora que não dá mais , que não tem como fingir que vai dar tudo certo , é preciso que se tome uma atitude pra dar certo , que se faça uma escolha . Em alguns momentos na nossa vida nos vemos num cruzamento de ruas , e por um momento de clareza no meio ao caos nos vemos no centro dele , é preciso escolher um caminho , não se pode ficar parado a vida inteira esperando que escolham por você , você tem uma chance , a use ! A não ser que queira definhar ali , no centro de tudo , esperando um acidente que vai te forçar a ir pra outro lugar e seguir a vida assim sem viver , deixando que escolham por você , que decidam o que é cômodo , o que é plausível , o que é sensato , o que é correto . Seja dono do seu destino , reinvente-o quantas vezes achar necessário . A única certeza que há é que essa vida existe , e que ela tem que ser vivida , bem ou mal , mas tem .

Se olhe no espelho e se veja com olhos de um desconhecido , gosta do que vê ? Não tem nada errado ? Nada fora do lugar ? Nada a ser resolvido ? Ia gostar que vissem alguém que só lamenta ? Alguém que só reclama ? Alguém que só tem medo ? Ia gostar de ver alguém que só sonha mas que não tem coragem de lutar pelo que quer ? Ia querer se aproximar de você ? O que há de errado ? Mude , você pode fazer isso . Seja mais . Corra , chore , lute , escreva , plante , pinte , nade , abrace , beije , sorria , estude , participe , escolha , ame ! Faça valer cada segundo que lhe é permitido .


Seja a mudança que você quer ver no mundo - Gandhi

sábado, 29 de maio de 2010

retalhos de uma madrugada ;

Me assusta saber que o único potencial extraordinário que eu tenho é passar dos limites da ingenuidade humana , me alegra saber que você não tem potencial nenhum .

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Todas ruins , todas as palavras que vem da lembrança da sua medíocre existência são medíocres , de uma árvore podre nada de bom poderia vir .

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Eu não sei quem você é , mas sei que , seja o que for , é muito ruim . E você , sabe quem é ?

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Tão pouco , tão pouco
Como é possível ?
Era tanto , tanto amor
O que restou além do oco ?

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Você é pior que todos os outros , porque me cativou ... com mentiras .

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Eu inventei ? Me diz se eu inventei . Me fala , o você que eu amei algum dia existiu ? Você , essa coisa estúpida que bate aqui dentro , algum dia bateu de verdade por ele ? Se sim ... como se pode ter uma concentração tão grande de estupidez num lugar só ? Ele nunca existiu , o tal ele que você amou nunca existiu . E se não amou ... que diabos foram aquelas lágrimas e aquela vontade de morrer ? Porque você se odeia tanto a pensar que ama o primeiro idiota que lhe aparece , ou o segundo ... ou milésimo , amaste todos , mas esse é o mais inacreditável , se você contar alguém ela não vai acreditar , vai pensar que é mais um delírio seu . Porque ser ele deve ser deplorável , mas amar alguém como ele , é vergonhoso .

quarta-feira, 26 de maio de 2010

é ser você

Com você aprendi a bizarra arte de amar alguém que não existe .

As flores , as que você nunca mandou , tem um valor sentimental muito grande pra mim . As olheiras quase permanentes me lembram a cada amanhecer da noite mal dormida pensando em você . Abrir a porta do carro e puxar a cadeira pra sentar são coisas mais presentes do que você jamais foi . Todas as coisas que você nunca me disse são uma companhia permanente , me acompanham onde quer que eu vá , ocasionalmente viram textos como esse . As músicas que você não cantou pra mim são lindas , alguém pobre de espírito como você não as podia ter cantado . A palavra de apoio que você não me disse era encantadora , diferente de você .

Tudo que você não fez era magnífico , você escolheu bem todas as opções que pessoas medíocres escolhem , como não viver com medo de errar , e errar mesmo assim . Faça um livro . E não me diga onde comprar , minhas não lembranças de você me consomem muito tempo . Você acha que triste amar alguém que não existe ? Não é , como eu disse no começo , é só bizarro , me faz rir como você nunca fez , lamentável mesmo é não existir , é saber que o adjetivo covarde covarde foi feito pra você , é não ter o que lembrar , é ser você .

terça-feira, 25 de maio de 2010

tutorial ;

Chegue devagar , sem pressa , como quem cerca o abstrato e o tenta expressar , não me venha com pressa , violência , com ânsia de resultados , se você vinher assim não vai ter nenhum . Me respeite , respeite o tempo que eu preciso . Um dia acreditei demais , hoje nem acredito , não é tão fácil assim .

Me roube sorrisos , um por um , não porque me tiras eles , mas porque sabes que eles existem porque tú existes . Vai ter um dia em que eu não vou mais conseguir sorrir sem ti , só basta que esperes , e que me roube sorrisos , porque um dia eles todos serão seus e aí não vai mais existir dor ou dúvida . Faça meu coração bater loucamente , exigindo a presença do teu do lado dele . Me abrace , me ame .

Nunca , mas nunca me dê lágrimas , porque essas eu tinha aos montes , e expulsei todas , não as quero mais , não sinto falta delas . Faça tudo isso , e quem sabe eu vou conseguir te dizer que mesmo se não fizesse eu te amaria , porque já amo .

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um pássaro ;

Hoje vi um pássaro morto , e não sei ao certo porque , mas isso me parece falar por si . Ele tava enrolado nas suas asas , olhando pro céu , de um jeito absolutamente comovente .

Pra onde pássaros vão quando morrem ? Já não é o paraíso viver voando , sem coração pra doer ou contas pra pagar ? Seus olhos estavam abertos , refletiam o céu , e eu pude ver um brilho diferente , quase como se me confidenciasse que eu estava certa , que ele não queria nada além de viver que tudo que viveu novamente , de ver tudo que viu , de sentir toda a brisa que sentiu ... E essa confidência me tocou , me tocou de tal forma que eu quase sentei ali , naquela calçada suja , e lhe disse que eu também queria , viver tudo que ele viveu , ou quem sabe até o que eu vivi . Não tive uma vida ruim sabe ... mas viver voando , pra onde eu quisesse sem palavras , sem críticas , sem promessas ou juras de amor não ditas , sem todas essas coisas que nós humanos , seres altamente evoluídos ( ou não ) criamos pra dificultar tudo , e pra justificar a nossa tal superioridade , enfim , não vou mentir , viver como ele , voar como ele , ser livre como ele , nunca me pareceu ser uma má idéia , e ao pensar nisso vi outro lampejo de luz lhe percorrer o olhar .

Ele não tinha asas multicoloridas nem estava ameaçado de extinção , os 'especialistas' diriam que não se trata de nada além de um pássaro comum , eu diria que vi no olhar dele o que eu não vejo no olhar dos 'especialistas' , sinceridade , pureza , intensidade . Tão pequeno , tão singular , tão maior do que eu jamais fui .

Pensei na minha morte ... queria que fosse assim , morrer enrolada nas minhas asas , com que voei por toda minha vida , sem hipocrisia , sem burocracia , lamentações ou culpas , só a morte , e toda a beleza que há nisso . As pessoas reclama da morte , mas no fundo ( ou nem tão fundo assim ) , as pessoas reclamam de tudo . Se chove , se faz sol , se a árvore cresce demais , se a outra insiste em não dar frutos , se tem filhos , se não tem , se vivem intensamente , se morrem . A vida e a morte se completam , são faces da mesma moeda , são irmãs gêmeas , quase almas gêmeas , se completam , são lindas , cada um ao seu modo . Qual graça teria a vida sem a morte , me diz ? Seria um tédio , cheio de coisas deixadas pra um amanhã que nunca chega , sem riscos , sem medo . Até no medo há beleza ... só é preciso que se saiba notar .

Tudo isso aquele pequeno pássaro me fez pensar , tudo isso aquele olhar sem maldade me trouxe ... Me coloquei no lugar dele por um momento ... se fosse eu que estivesse ali , ainda seria eu ? teria lembrança dessas palavras ou de uma dor qualquer ? Provavelmente não , o que torna tudo isso mais atraente . E eu simplesmente não conseguia parar de olhar pra aqueles olhos .

Hoje não me importa a inflação, a bolsa de valores ou uma guerra qualquer ... um pássaro morreu ... e só há beleza nisso .

terça-feira, 18 de maio de 2010

http://www.fotolog.com.br/femore/

Hoje
Hoje eu
Hoje eu não
Hoje eu não quero
Hoje eu não quero mais
Hoje eu não quero mais você
Hoje eu não quero mais você porque eu nunca te quis
Eu nunca te quis porque hoje eu não quero mais você.
Eu nunca te quis
Nunca te quis
Te quis como nunca
Eu te quis
Te quis
Te quis meu
Te quis seu
Eu
Quis
Hoje
Eu