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domingo, 24 de abril de 2011

Tous illusion


O dia amanhecia, e só sabia disso porque o sol gritava pelas frestas, cortinas, janelas. Não sabia quem era, e enquanto tentava lembrar se lembrou que ninguém sabia de verdade, porra, caralho, filosofia barata fica, mas não lembro meu nome? Olhou pras persianas vermelhas que deixava o quarto todo parecendo fogo, e sentiu o fogo queimando na garganta, um vestígio violento de álcool.
Tentou lembrar como foi parar ali, olhou pro corpo estático ao lado do seu corpo estático, tava vivo? Tocou no braço, quente, muito quente, é , tava vivo. Percebeu pelo cabelo comprido e pela batom vermelho estampado na face, nas fronhas, que era uma mulher. Tentou levantar, o gosto na boca de conhaque, uísque e cachaça, meu Deus até cachaça, pensou enquanto ia pro banheiro vomitar. O banheiro ele soube onde ficava, não sabia quem era, onde estava, mas o banheiro soube onde ficava.
Enquanto vomitava lembrava de umas cenas de um filme que viu faz tempo e não lembrava o nome, uma mulher e um homem atirando um ao outro contra a parede, Jet'aime monamour o homem dizia, e a mulher ria, ria, dizia algo que ele não lembrava direito, algo como tous illusion mon cher, não sabia, não lembrava, e o atirava contra a parede de novo, gemidos, carências, água escorrendo pelo corpo de um de outro, e uma vontade de que escorresse também as dores, os medos, tudo que não servia mais. Ergueu a cabeça, olhou ao redor viu que não era um filme antigo, era sua vida.
Olhou pra mulher desgrenhada no quarto, lembrou do sorriso dela, teu sorriso brilha mais que as pedras do El dorado, lembrou que disse, teus olhos que tem o brilho de marte e júpiter juntos, lembrou que ouviu. Lembrou que um amigo de um amigo apresentou, e desde então nada de banda, nada de amigos, nada de si, só lembrava do sorriso dela e das luzes.
Isso nunca aconteceu, nunca antes sorrisos-pedras-do-Eldorado, nunca antes sussurros em francês, nunca esqueci meu nome, o delas sempre, o meu nunca. Falando nisso, qual meu nome porra? Como que esqueci ? Depois tatuo na perna pra não esquecer nunca mais, digo que é prova de amor pra mim mesmo. Pensou em acordar ela e perguntar, mas que patético, perguntar meu próprio nome.
Decidiu então ir embora, sem destino, sem saber de si, cantarolou caetano sem lenço sem documento e foi em direção a porta. Parou e olhou pra ela, tão linda, alguns anos a mais, ele via, não se importou, tanta humanidade naqueles cabelos desgranhados, tanta leveza naqueles traços finos, naquela cintura estreita, tanta força naquele olhar, e aquela ar de quem já sofreu o bastante pra não acreditar em qualquer ilusão, protegida pela dor. Nada disso ele soube na hora, só quis ficar, quis abraçar ela e falar que não, nem tudo é ilusão ma cherie.
Chegou a fechar a porta e dar um passo em direção a ela de novo, lembrou que não sabia nem o nome, e que ela merecia mais que alguém patético o suficiente pra esquecer o nome. Descubro e volto, pensou ao sair.
O barulho da porta a acordou, ela abriu os olhos, lembrou do garoto da noite passada, qual mesmo o nome? João, João Henrique, nomes de rei, lembrou que disse entre um drink e outro. Chegou a falar de amor, lembrou, ensaiou até um francês. Como é bonita a inocência de quem acha que pode dar certo, que alguma coisa nessa vida dá. Pensei que esse ficava ao menos até o café da manhã, disse em um sussurro antes de fechar as persianas e voltar a dormir.

24/04/2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um devaneio qualquer


Me abrace, só me abrace. Não se importe com o antes-pra-sempre-depois-talvez. Me dê a mão, me leve para um lugar qualquer bonito que cintile de esperança, luz e cor. Toca no meu rosto, pescoço, corpo quadril, me sentencia um arrepio. Quero pensar que amor não é só um artifício pra disfarçar nossa incompletude, nossa incapacidade de ser feliz sozinho, nossos vazios. Quero pensar isso junto a você. Queria tanto que nossos pensamentos - antagônicos, diferentes, opostos - imitassem nossos corpos e se completassem, se encaixassem tão perfeita e loucamente que ficasse impossível notar onde começa um ou onde termina o outro, por se tratar do mesmo ponto inexorável eterno no momento exato em que acontece.

22/04/2011

Se ainda tem alguém lendo isso aqui, feliz chocolate pra você :*

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Coragem

Tava cá pensando com meus botões (que não existem, tô de vestido)... como ter um amor homossexual é sinal de coragem. Vê só comigo, além de enfrentar todas as coisas bem simples e fáceis de lidar que amar já implica, como sentir necessidade de uma outra pessoa que pode ou não sentir de você, ou ciúmes, ou saudades, ou todas essas coisas m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-s de sentir, e vocês sabem a que eu me refiro, o corajoso que topa um desafio desses ainda tem que enfrentar os olhares preconceituosos e patéticos da sociedade, e conviver com a idéia imposta por essa sociedade (considerando o mundo cristão) de que ele já tem seu lugar definido no inferno. E pensando assim, vendo essa coragem toda em ser o que se é, em ter verdade consigo mesmo e com o resto do mundo, o preconceito me parece ainda mais irracional.

Clara Delfino

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colocaram

Colocaram na tua cabeça que o oriental é retrógrado e violento, que o negro é ladrão, que o branco é preconceituoso, que a mulher é incapaz, que o nordestino é burro, que o feio não merece amor. Colocaram na tua cabeça que a paz não é algo que se constrói, e sim algo que surge do nada. Colocaram na tua cabeça que todo amor é eterno e que mesmo quando ele te joga na cara que não é assim, você tem que insistir em sofrer porque acabou. Colocaram na tua cabeça que todo fim dói (na minha também). Colocaram na tua cabeça que você deve amar ao próximo como a si mesmo, e você esquece o tempo todo que tem que ter essa parte de amor dispensada pra si, só ama o outro. Colocaram na tua cabeça que sexo é errado, mas guerra tem seus motivos (que valem mais do que vidas). Colocaram o inferno das culpas na tua cabeça. Colocaram uma porção de verdades absolutas na tua cabeça. Colocaram, inclusive, a idéia de que o mendigo só precisa de dinheiro, e que dispensar 5 minutos do teu tempo falando com ele colocaria em risco tua vida, como se viver já não resultasse em poder morrer. Colocaram na tua cabeça que ter um amor implica em não ter liberdade. Colocaram na tua cabeça que idéias prontas são melhores do que pensar e contestar as coisas, colocaram isso com um objetivo. Colocaram porque você deixou que colocassem.

Clara Delfino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Câmera lenta

Ele olha pra ela. Ela olha pra ele. Câmera lenta, ninguém respira, um silêncio que se diferencia de outros silêncios, porque esse diz, e diz muito do que vai acontecer. Ela sorri, e lembra ocasionalmente de arrumar espaço pra respirar. Ele se aproxima - será que posso? Ela responde que sim, com o olhar. Ele dá mais um passo, solta as malas, sem pensar. Pra quê servem os pensamentos num momento desse? Até os céticos teriam que concordar. Mas voltemos à cena. Ele a abraça e ergue do chão, começando a girar. Ela segura forte no pescoço dele, cruza suas mãos num nó que não quer desatar, que não devia nunca desatar. Olha nos olhos dele, vê o brilho deles e pede aos búzios, às cartas, às estrelas cadentes, aos orixás, que não se apague, nunca se apague o brilho do olhar dele, e que a verdade do sorriso dela não fique fosca, surda, muda. Que aquele momento seja eterno, que volte em todos os olhares de cada dia de cada briga de cada despedida de cada reencontro de cada noite, amém. Ele não consegue falar, não consegue juntar as palavras, obedecer a sintaxe, lembrar da gramática, como que se faz mesmo ? Junta o pronome pessoal, primeira pessoal do singular, o verbo amar na primeira pessoa, no presente, e o pronome, aquele, de tratamento, de tratar, tratar o outro, tratar bem o outro. Isso. E-u-a-m-o-v-o-c-ê, ele soletra no pensamento, e de alguma forma, a mesma frase ecoa na mente dela, como se já tivesse sido dita, quem sabe foi. Quer voar? Ele consegue sussurrar. Quero, depois que eu soltar o céu.


Clara Delfino

Ah, eu senti falta de ser doce... Peguei esse texto que tava quase pronto e mudei um pouco, ficou isso aí (:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Vejo gente idiota

Desculpa a demora absurda pra postar, os céticos diriam o óbvio, como esse é um blog de 'pensamentos' , vai ver eu não tenho pensado muito. Nunca se sabe... A verdade - fodam-se os céticos - é que eu tenho, mas são pensamentos muito... revoltados, muito violentos. Poxa, tem um país tentando se libertar de uma ditadura de uns 30 anos, e o meu país - que já viveu uma dessas - só consegue falar do BBB. Poxa, amores eternos aparecem mais rápido do que contas, e eu não aguento mais ver os motivos ridículos que só falam de beleza e de dinheiro (pra não falar na carência e no medo da solidão), como se o primeiro não fosse construção e o segundo não fosse passageiro. Vejo gente que desiste do amor e começa a 'pegar geral', dói menos, só deve doer na hora que vê um espelho, como sustentar o olhar ? Vejo comentários imbecis sobre um cara fantástico que sofreu um acidente e tá com risco de vida (Shaollin, só pra constar). Vejo gente mal-educada de graça, vejo gente ridícula. Vejo fanatismo. Vejo argumentos fracos. Vejo gente idiota, com frequência. Claro que eu conheço umas exceções lindas, na verdade conheço tantas que me acho muito, muito sortuda. Mas o resto ainda existe, e ainda me irrita. E não sei, acho meus textos revoltados tão... imaturos, talvez me falte conhecimento teórico pra criticar isso tudo, talvez me falte tempo pra amadurecer as idéias, talvez nem falte nada, só vontade.

Além do mais, tem os outros blogs e afins que eu escrevo de vez em nunca.
http://naocoubenosilencio.wordpress.com/
http://oqueoventonaoleva.blogspot.com/

e o tumblr que não tô afim de linkar, é isso aí, goodbye.

Só um recado

A uns dias atrás tava pensando no que traz mais felicidade, ou no que - por falta de um outro adjetivo melhor - é mais digno. Ter uma vida normal, seguindo as exigências da sociedade, como o Caiozinho (Caio F.) disse "ser hetero e casar aos 20", ou ter uma vida cheia de liberdade, viagens, loucas paixões, ausência de pudores e limites, e uma boa dose de melancolia e tristeza pelo mundo. Enfim, viver o mundo, entrar na roda, seguir os demais, ou pensar sobre isso e tomar suas próprias decisões, ignorando as críticas que vem de brinde. A minha opção sempre foi a segunda, sempre achei que um casamento - por exemplo - ia me tirar as inúmeras possibilidades que eu tenho, ia podar minha liberdade que ainda nem consegui por inteiro. Só que eu comecei a refletir sobre o fim... como tudo inevitavelmente acaba, qual seria o fim 'menos ruim', o do Caiozinho com um imenso conhecimento adquirido - que boa parte se perdeu - uma visão de mundo ímpar, uma DST e uma morte na casa dos pais, sem um alguém pra dizer ' depois vou pra lá, o mundo vai ficar um saco sem você' ou uma pessoa normal, que faz o que a sociedade manda e envelhece ao lado de alguém que ama e talvez o ame de volta. O bom seria poder fazer os dois, mas será que dá ? Amor e liberdade são excludentes?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Newton e coisas rasas

Nós humanos, temos a incrível capacidade de fantasiar. Sejam fantasias boas ou ruins, nós temos essa capacidade. Me lembro da única frase que me fez gerar algum tipo de sentimento útil que eu ouvi de um certo professor patético. Dizia basicamente que o homem, digo, a raça humana - Homo sapiens sapiens - conseguiu se diferenciar e predominar sobre as outras que existiam (Austrolopitecus, Neandertais etc etc ) por possuir uma capacidade que as outras não tinham: criatividade. Criatividade. Eu ainda acho que é o que move o mundo, e não o dinheiro, o petróleo, as guerras.
Eu acho criatividade essencial, mesmo, acho que ninguém lhe dá atenção merecida. Sem ela nós simplesmente morreríamos de tédio, sem ela o sentimento de que tudo que tinha que ser inventado já foi, as grandes músicas já foram escritas, os grandes músicos estão fadados a entrar em extinção, enfim, esse sentimento seria generalizado. E seria de uma desesperança absoluta.
Criatividade nos dá de brinde esperança , um escritor nunca escreve um livro por acaso, só pra deixar atirado embaixo da cama, sem mudar a vida de ninguém, inclusive a sua. Os músicos (ainda restam uns poucos bons) raramente vão querer guardar sua música só pra si, e inconscientemente vai se tornar trilha sonora do amor de alguém, da dor de alguém. Eu quando invento um passeio, uma tradição, um jogo, tô mudando a minha vida, mesmo que seja de um jeito insignificante, ou mesmo que seja pra pior, e de quebra, ainda altero a de alguém.
A criatividade nos livra da inércia, e como diria Newton na única frase de física que eu aplico na vida " Toda ação corresponde a uma reação", a criatividade, a força de vontade, a esperança ou até mesmo as obrigações diárias (universidade, trabalhar , etc etc) nos impede de ficar parado na frente de uma tv ou computador não fazendo nada muito útil, nada que nos dê lembranças fantásticas.
Ando acreditando nisso, ando valorizando cada tentativa, por mais inábil que seja. Me permito a tudo, menos à coisas rasas, pequenas, medíocres. Não brigo mais com a vida, sou cúmplice dela.

Clara Delfino

Hipocrisia não

Vem cá , fala pra mim que você é interesseiro, movido a sexo, e vendido aos hábitos da nossa sociedade, fala pra mim que você é mais um na multidão, que gosta de fazer parte dela, mas gosta ainda mais de se destacar nela, como o melhor, o mais bonito, o mais rico. Fala pra mim que todas as mulheres sucumbem a teu charme irresístivel. Fala, fala de uma vez! Só não fale pra mim que você é romântico e diferente e especial e qualquer outro adjetivo imbecil que não te descreve em nada, que enganaria a qualquer uma, mas não a mim. Seja ruim, seja podre, mas admita isso, eu suportaria tua falsa modéstia, teu narcisismo, tua falta de QI, mas hipocrisia não, pode dar meia-volta e refazer esse discurso.

Clara Delfino

domingo, 2 de janeiro de 2011

"Que seja doce"

Eu vejo o ano novo como um caderno novo, vai soar clichê, eu sei, mas o sentimento que eu tenho é esse, que às 00:01 de 01/01 me entregam um caderno em branco e uma caneta, e eu sei que por mais que eu não queira (e eu definitivamente quero) algo vai ser escrito ali, bom ou ruim, vai ser escrito. Não há muitas opções nesse caso, os dias correm (ultimamente numa velocidade assustadora e fantástica) e eu realmente não tô afim de contestar isso, de brigar com o relógio, de devolver o caderno em branco. Me tira o fôlego pensar em quantos livros fantásticos eu vou ler, em quantos abraços sinceros vou ganhar, em quanto vou amadurecer, em quantas pessoas vou conhecer, em quantos beijos intermináveis vou dar. Tenho sede de eternidades, as sentidas, não as prometidas ou planejadas. E o mais lindo disso, o que mais me assombra de encantamento é que não há medo, não há sequer aflição ou urgência, só há vida e basta, como basta!

Apesar de toda essa falação que não diz muito além de : 2011 ? Pode vim quente que eu estou fervendo. (IDSOIDOSIDOSIDOSIDOSIDS ignorem) Essa foi a primeira vez que eu vivi o Natal e a Virada de ano e não me senti nem no Natal nem na Virada de ano, eu simplesmente vejo o ano novo como uma continuação do velho e really, o ano velho foi fantástico. E eu entendo quem questiona isso, quem se recusa a ceder à mídia e às convenções sociais, e posso até dizer que no alto de sua racionalidade e dos seus ótimos argumentos eles estão certos, mas... porque eu não posso desejar coisas felizes às pessoas ? Em todos os dias do ano, é claro, mas num dia com luzes piscando e esperanças surgindo fica ainda mais bonito.

Clara Delfino

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Corda bamba


Seja sensual, não demais ... seria vulgar , não de menos ... não quer ser uma puritana sem graça. Seja original, diferente, mas não bizarra. Seja feliz, mesmo que doa (ninguém se importa muito com nada além de si mesmo), e lembre-se sempre: não seja muito, não seja pouco. Seja inteligente, nada muito acentuado, nada de ser a nerd sabichona, mas inteligente sim, o suficiente pra não fazer ninguém passar vergonha, as pessoas não gostam de andar acompanhado de uma 'porta', pega mal, entende ?
Ah, e os atributos físicos então ? Tenha seios bonitos , não muito grandes , não muito pequenos , na medida. E isso vale pra barriga, pra bunda - acredite -, pra coxas , pra quadris, pra boca, pra QI. Tudo é passível de julgamento, tudo tem que estar na medida. Na medida de que ? - perguntam. Do que estabeleceram - respondo. Quem estabeleceu? - perguntam. Não faço a menor idéia - encerro.
Variando de lugar pra lugar , de sociedade pra sociedade e , ocasionalmente, de indivíduo pra indivíduo, os estereótipos se formam e de repente são uma exigência, pressupõe-se que você seja inteligente, engraçada, simpática e bonita, tudo na medida certa, na quantidade suficiente e ai de você se não for.
A verdade é que todos nós dessa sociedade manicomial, desse grande circo sem muita graça, andamos na corda bamba. Na busca de uma aparência perfeita, de um amor perfeito (pros poucos que ainda acreditam) , de um relacionamento perfeito, de uma carreira perfeita... e assim vai. Uma sociedade que se veste de democracia, se enfeita de um falso respeito à diferença e se cobre de um moralismo hipócrita, é nessa sociedade que vivemos, é isso que criamos. Um mundo em que tem de tudo em abundância, menos verdade.

Clara Delfino

terça-feira, 5 de outubro de 2010

-


Você me treinou tão bem . Todos aqueles jantares à luz de velas sozinha , todas aquelas viagens com apenas o fone de ouvido de companhia , todos aqueles planos adiados para talvez , para nunca , todos aqueles sonhos que você não me deixou sonhar . Todas as cartas que te escrevi fazendo o percurso curto e doloroso do meu caderno até a lata do lixo , isso é besteira , você ia dizer .

Tava bem claro , todas aquelas tuas conversas indiferentes , finais , premonitórias . Estava escrito que seria assim , você escreveu . E não serviu , toda sua frieza , indiferença e egoísmo não me afastaram , todo o treinamento se mostrou inútil .

Sinto sua falta como se você fosse presente antes de partir , como se as cartas tivessem sido entregues , as canções ouvidas , as palavras ditas . Teu treinamento não só não serviu como teve efeito contrário , tua ausência é tão concreta que já não é , você tá mais presente do que jamais foi , tua falta não me abandona mais .

Clara Delfino

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

só


Eu só quero alguém que pense em mim antes de dormir , e antes de acordar , e antes de sorrir e antes de querer . Cansei de meios-amores , de relacionamentos não classificáveis , de amizades com desejo , e amores com companheirismo , cansei de perguntas , quero respostas , e não me venha com a verdade é relativa ou outro qualquer pensamento hipócrita , quero coisas concretas e quero agora . Eu só quero alguém que olhe nos meus olhos e não precise dizer mais nada , mas mesmo assim diga , alguém que me tire desse caos , alguém que me faça sentir especial , quero alguém que me tire o fôlego , e que não precise se esforçar pra isso , alguém que me estremeça a alma , alguém que entenda minha urgência de vida , alguém que me dê um ombro pra chorar , uma boca pra beijar e um motivo pra existir .
Clara Delfino

domingo, 3 de outubro de 2010

uma cena qualquer

Sábado de manhã , longa noite de sexta , noite que não acabou . Um homem e uma mulher sentados numa mesa de uma lanchonete qualquer , depois de ter passado a noite sentado em outra mesa de um bar qualquer . Palavras trocadas . Ela se irrita , se levanta , o estapeia - não como cena de filme , entenda bem , ela lhe deu aquele tapa com a mínima elegância e dignidade que a raiva dela lhe permitiu - e sai . Silêncio . Ela pega um táxi , lágrimas escorrendo , maquiagem manchada , último trocado gasto naquilo , que noite horrível . Ele continua sentado , imóvel , indiferente , ela e mais uma a caminho do banheiro , foi uma noite razoável , faz os cálculos , nem gastou tanto . Ela chega em casa , não consegue colocar a chave na fechadura , treme , de raiva , de amor , de ódio . Ele chama um garçom , mais uma dose , olha pras pessoas da mesa , começa a falar de política . Ela entra , joga o salto pra um canto e chora , amargamente , sente que vai passar o dia todo assim , sente certo . Ele combina de ir pra uma chácara mais tarde , muitas mulheres , ouviu falar . Ela o ama - nunca ouviu falar de amor próprio , talvez em um daqueles livros auto-ajuda que tem ? não sabe , prestou atenção não - ele se ama - nunca ouviu falar de amor .

Clara Delfino

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

artigo definido ;


Você sabe que poderia ser mais ? Você sabe que poderia ser tudo ? O motivo dos meus sorrisos , a relevância em cada música , as batidas violentas e reveladoras do meu coração ? Meu sorriso mais bonito , meu olhar mais profundo , meu sentimento mais sincero , eu te daria sem hesitar , Acariciaria teu rosto , te faria cafuné , roubaria tuas lágrimas , devolveria em sorrisos .
Você poderia ser meu sol , eu tua inspiração , nós seríamos bons juntos , você com sua calma , seu silêncio oportuno , sua paz , e eu assim mesmo , imperfeita , inconstante , impulsiva . Poderíamos nos completar de alguma forma , talvez você não veja , mas poderíamos .
Quero que deixes de ser assim , artigo indefinido e passe a ser artigo definido , pronome possessivo . Um garoto , o garoto , meu garoto . Meu amor . Quero transformar o verbo querer em tantos outros ... poder , ver , te ter . Te transformar em complemento-nominal-verbal-real, o que te trouxer pra mim . Vem comigo ? Me ajuda a consertar a gramática , a achar um sentido , a encontrar abrigo .

Clara Delfino

Aquarelas

Hoje não , não quero almas pequenas , não quero abraços falsos , propaganda eleitoral , chuchu e noticiários tristes , nada disso quero hoje . Pessoas que machucam , coisas que acinzentam coisas , desculpas inventadas , gente infeliz que só sorri , tanques de guerra , tudo isso , vá pra longe de mim . E aquela TV , que além de não esconder minha solidão diminui meu QI , não precisa trazer de volta , deixe aí . Eu quero o sorriso da criança , o que sei que está voltado pra mim e não pros cifrões . Quero a luz do sol , que ilumina qualquer um apesar dos seus lotes de dor e culpa ,quem sabe não ilumine assim , sem distinção , exatamente por isso . Eu quero marshmelow com chocolate , quero cores , aquarelas , laços , abraços . Reinventar a palavra viver . Aprender todos os dias o significado de amar . E seguir assim , caminhando , sem perceber a existência do caminho .

Clara Delfino

Cansei


Eu cansei . Desde o primeiro olhar isso já tava claro , era uma questão de tempo , um tempo que já se foi . Se foi como as certezas que eu tinha , se foi como o bem que você me fazia , se foi como a tua ausência . Tua ausência , já nem lembro dela , é estranho ... eu sempre pensei que ela desapareceria quando você estivesse ao meu lado , mas foi muito antes , afinal , você nunca esteve e ela já se foi . Ela sumiu com o afeto que não foi dado , com as promessas que não foram cumpridas , com essa coisa toda que não foi , com um você e eu , que já não somos nós .

Clara Delfino

pré-nada ;

Sou minha demais pra ser de alguém.Geralmente há um período em que eu finjo que não sei, que só é pré de uma coisa que não vai ser, um pré-fim. E ai tudo fica lindo, as palavras mais bonitas são ditas, os sentimentos mais bonitos são vividos. Viver sentimentos não concretizados, não-reais, sou uma multiplicação de quases, sou a própria caixa-de-pandora . Como eu já disse, há o pré-coisa-que-não-vai-ser, há o embaçado que não me deixa enxergar o que vem depois do pré, e de repente... nada. Chamo essa parte de luz negra, aquele tipo de visão que você não quer ver, a iluminação que traz escuridão. E daí sofro, escrevo, choro, ou não, nem choro mais , meus olhos se recusam a obedecer a tonta que os embaçou, que os condenou a miopia de ver um futuro onde não havia nada. Depois supero, hipoteticamente, e ganho aquela postura de Mulher-Interessante-que-já-sofreu-por-Amor e de bônus aquele discurso de não-caio-mais-nas-armadilhas-do-Amor. Ai vem um outro alguém e eu me pergunto será-que-agora-vai? E de novo me iludo e de novo esqueço que não-vai-dar-em-nada, e de novo amo.

Clara Delfino

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Estagnada


Eu não pensei que seria assim , eu não imaginei nem no pior dos pesadelos que seria assim . Você se perdeu de mim . Hoje eu não sei mais nada sobre ti , às vezes penso que nunca soube , que nunca saberei , às vezes tenho certeza . Mas o que dói , o que maltrata , o que machuca , é a gente ter se perdido . Não sei dos teus dias , das tuas dores , dos teus amores , dos teus sonhos , teus defeitos . Sinto falta até deles . Sinto falta do arrepio involuntário que me percorria o corpo ao ver teu nome , ele ainda ocorre , é verdade , mas teu nome aparece tão pouco ...

Sinto falta da vida que você injetava na minha vida , sinto falta dos sorrisos que em escapavam pelas bobagens que em dizias , e da revolta que em dava por ser sempre tão vulnerável , tão fácil , tão tua . Sinto falta até da falta que eu sentia , da saudade velada , do sentimento camuflado .

Eu não pensei que seria assim , esse vazio tão absurdamente intenso , essa incapacidade de sentir o que senti quando ainda havias tú , e o sonho de um nós . Me sinto estagnada naquele adeus , parada na estrada te vendo sumir , seguir em frente , sem olhar pra trás , mas eu não , eu nem me movo , continuo lá a te olhar , esperando você voltar e devolver essa parte toda que levou de mim .

Clara Delfino

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Uma rosa


Um grito , e tudo mudou . Um único grito , e seu mundo fantasiado de vida-politicamente-correta-e-feliz ruiu . Ali naquela tarde ensolarada de março , naquele calor escaldante , naquele trânsito infernal , ela sentiu todo o seu corpo estremecer ao ver o que seus olhos viam . Um carro a direita do seu , que , tinha uma chance absurda de ser o seu bateu em uma menininha , que se apressava com a mãe pra ir a escola , o carro tava com o direito , é verdade . Mas a menininha acenou , parecia ter um super poder , parecia acreditar que o homem do carro entenderia que ela realmente tava atrasada pra aula e que a mãe dela tava irritada , e triste demais ultimamente , e que ela não queria mais que ela chorasse de noite , que ela queria ser boa o suficiente pra fazer ela feliz , ela achava que aquela rosa que ela pegou no caminho da escola , e que não teve tempo de entregar a mãe ia fazer a diferença , ela não entendia que não era culpa dela , e que não podia mudar nada , ela não entendia que o homem do carro não podia entender isso , nem nada . Ela não entendia o quão cego alguém que vê pode ser . Então ela acenou , e o homem do carro , afundado nos seus próprios problemas adultos e grandiosos , sempre grandiosos , estava cego pra tudo que ele não achasse grandioso , estava cego pra qualquer aceno , qualquer beleza , qualquer magia .

E ela , a mulher do carro do lado , que poderia ter sido o seu , observava com choque a poça de sangue em que se afundava a menininha , observava o desespero da mãe dela , e depois , não , por não ter o que olhar , mas por se sentir atraída a olhar pra’li , observava o sol , o sol nos cacos de vidro , o sol dos cacos de vidro , e não tinha mais como desviar . Havia uma menina , e uma rosa , e uma esperança , e agora só há o vermelho , a imensidão que ele pode ter . Agora só há a intensidade de um grito , cacos de sol , e uma rosa que de rosa passou a pingar vermelho .