sábado, 24 de setembro de 2011

Confronto

Bateu, Amor à porte da Loucura.
"Deixe-me entrar, pediu, sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu a paixão"

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto o Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo, de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu".
Mais que ningém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu.

Enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de Amor"

Carlos Drummond

domingo, 24 de abril de 2011

Tous illusion


O dia amanhecia, e só sabia disso porque o sol gritava pelas frestas, cortinas, janelas. Não sabia quem era, e enquanto tentava lembrar se lembrou que ninguém sabia de verdade, porra, caralho, filosofia barata fica, mas não lembro meu nome? Olhou pras persianas vermelhas que deixava o quarto todo parecendo fogo, e sentiu o fogo queimando na garganta, um vestígio violento de álcool.
Tentou lembrar como foi parar ali, olhou pro corpo estático ao lado do seu corpo estático, tava vivo? Tocou no braço, quente, muito quente, é , tava vivo. Percebeu pelo cabelo comprido e pela batom vermelho estampado na face, nas fronhas, que era uma mulher. Tentou levantar, o gosto na boca de conhaque, uísque e cachaça, meu Deus até cachaça, pensou enquanto ia pro banheiro vomitar. O banheiro ele soube onde ficava, não sabia quem era, onde estava, mas o banheiro soube onde ficava.
Enquanto vomitava lembrava de umas cenas de um filme que viu faz tempo e não lembrava o nome, uma mulher e um homem atirando um ao outro contra a parede, Jet'aime monamour o homem dizia, e a mulher ria, ria, dizia algo que ele não lembrava direito, algo como tous illusion mon cher, não sabia, não lembrava, e o atirava contra a parede de novo, gemidos, carências, água escorrendo pelo corpo de um de outro, e uma vontade de que escorresse também as dores, os medos, tudo que não servia mais. Ergueu a cabeça, olhou ao redor viu que não era um filme antigo, era sua vida.
Olhou pra mulher desgrenhada no quarto, lembrou do sorriso dela, teu sorriso brilha mais que as pedras do El dorado, lembrou que disse, teus olhos que tem o brilho de marte e júpiter juntos, lembrou que ouviu. Lembrou que um amigo de um amigo apresentou, e desde então nada de banda, nada de amigos, nada de si, só lembrava do sorriso dela e das luzes.
Isso nunca aconteceu, nunca antes sorrisos-pedras-do-Eldorado, nunca antes sussurros em francês, nunca esqueci meu nome, o delas sempre, o meu nunca. Falando nisso, qual meu nome porra? Como que esqueci ? Depois tatuo na perna pra não esquecer nunca mais, digo que é prova de amor pra mim mesmo. Pensou em acordar ela e perguntar, mas que patético, perguntar meu próprio nome.
Decidiu então ir embora, sem destino, sem saber de si, cantarolou caetano sem lenço sem documento e foi em direção a porta. Parou e olhou pra ela, tão linda, alguns anos a mais, ele via, não se importou, tanta humanidade naqueles cabelos desgranhados, tanta leveza naqueles traços finos, naquela cintura estreita, tanta força naquele olhar, e aquela ar de quem já sofreu o bastante pra não acreditar em qualquer ilusão, protegida pela dor. Nada disso ele soube na hora, só quis ficar, quis abraçar ela e falar que não, nem tudo é ilusão ma cherie.
Chegou a fechar a porta e dar um passo em direção a ela de novo, lembrou que não sabia nem o nome, e que ela merecia mais que alguém patético o suficiente pra esquecer o nome. Descubro e volto, pensou ao sair.
O barulho da porta a acordou, ela abriu os olhos, lembrou do garoto da noite passada, qual mesmo o nome? João, João Henrique, nomes de rei, lembrou que disse entre um drink e outro. Chegou a falar de amor, lembrou, ensaiou até um francês. Como é bonita a inocência de quem acha que pode dar certo, que alguma coisa nessa vida dá. Pensei que esse ficava ao menos até o café da manhã, disse em um sussurro antes de fechar as persianas e voltar a dormir.

24/04/2011

sábado, 23 de abril de 2011

Tutto passa

Meu bem, meu bem, meu bem. Não dificulte tanto assim, não seja tão cruel ao olhar pro espelho, não dê tanta atenção a essa lágrima. Os monstros, eu sei, você continua falando desses monstros, eles não existem menina, não existem. Vem cá, deita no meu colo, é que dói muito, eu sei, dói muito. Mas passa menina, você acredita em mim não acredita? Tudo passa, você que tem olhos inocentes demais pra ver isso, mas nessa vida não há nada que permaneça, só coisas que partem. Não chore tanto assim, não se importe tanto assim, é porque as coisas passam que outras coisas podem vir. Eu mesmo, você lembra menina? Surgi na tua vida quando um alguém tinha partido, tá bom, tá bom, não falo dele. Não, não quero te machucar mais, não quero te machucar nunca. Então, o que eu tava dizendo? Ah, passa, sim, tudo nessa vida passa, tutto passa. Em outra vida não sei pequena, não sei, só guardo memórias dessa e já me tomam tempo demais. Pode chorar, pode secar tuas lágrimas nos meus ombros, não, não se importe, não me importo que me alugue com tuas dores, um dia você vai sentir até falta delas, vai dizer qualquer bobagem como não-me-sinto-mais-viva-preciso-sentir-alguma-coisa-nem-que-seja-dor. E eu vou rir com tua inocência dolorida de novo. Sim, eu sei, isso não é assunto pra agora. Vai ficar tudo bem, tutto bene, tudo bem, tudo bem, tudo bem... te digo quantas vezes precisar pra você me ouvir pequena. Durma, pode dormir, não se importe com o resto, eu fico, te cuido, te guardo.


(23-04-2011)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um devaneio qualquer


Me abrace, só me abrace. Não se importe com o antes-pra-sempre-depois-talvez. Me dê a mão, me leve para um lugar qualquer bonito que cintile de esperança, luz e cor. Toca no meu rosto, pescoço, corpo quadril, me sentencia um arrepio. Quero pensar que amor não é só um artifício pra disfarçar nossa incompletude, nossa incapacidade de ser feliz sozinho, nossos vazios. Quero pensar isso junto a você. Queria tanto que nossos pensamentos - antagônicos, diferentes, opostos - imitassem nossos corpos e se completassem, se encaixassem tão perfeita e loucamente que ficasse impossível notar onde começa um ou onde termina o outro, por se tratar do mesmo ponto inexorável eterno no momento exato em que acontece.

22/04/2011

Se ainda tem alguém lendo isso aqui, feliz chocolate pra você :*

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Coragem

Tava cá pensando com meus botões (que não existem, tô de vestido)... como ter um amor homossexual é sinal de coragem. Vê só comigo, além de enfrentar todas as coisas bem simples e fáceis de lidar que amar já implica, como sentir necessidade de uma outra pessoa que pode ou não sentir de você, ou ciúmes, ou saudades, ou todas essas coisas m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-s de sentir, e vocês sabem a que eu me refiro, o corajoso que topa um desafio desses ainda tem que enfrentar os olhares preconceituosos e patéticos da sociedade, e conviver com a idéia imposta por essa sociedade (considerando o mundo cristão) de que ele já tem seu lugar definido no inferno. E pensando assim, vendo essa coragem toda em ser o que se é, em ter verdade consigo mesmo e com o resto do mundo, o preconceito me parece ainda mais irracional.

Clara Delfino

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colocaram

Colocaram na tua cabeça que o oriental é retrógrado e violento, que o negro é ladrão, que o branco é preconceituoso, que a mulher é incapaz, que o nordestino é burro, que o feio não merece amor. Colocaram na tua cabeça que a paz não é algo que se constrói, e sim algo que surge do nada. Colocaram na tua cabeça que todo amor é eterno e que mesmo quando ele te joga na cara que não é assim, você tem que insistir em sofrer porque acabou. Colocaram na tua cabeça que todo fim dói (na minha também). Colocaram na tua cabeça que você deve amar ao próximo como a si mesmo, e você esquece o tempo todo que tem que ter essa parte de amor dispensada pra si, só ama o outro. Colocaram na tua cabeça que sexo é errado, mas guerra tem seus motivos (que valem mais do que vidas). Colocaram o inferno das culpas na tua cabeça. Colocaram uma porção de verdades absolutas na tua cabeça. Colocaram, inclusive, a idéia de que o mendigo só precisa de dinheiro, e que dispensar 5 minutos do teu tempo falando com ele colocaria em risco tua vida, como se viver já não resultasse em poder morrer. Colocaram na tua cabeça que ter um amor implica em não ter liberdade. Colocaram na tua cabeça que idéias prontas são melhores do que pensar e contestar as coisas, colocaram isso com um objetivo. Colocaram porque você deixou que colocassem.

Clara Delfino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Câmera lenta

Ele olha pra ela. Ela olha pra ele. Câmera lenta, ninguém respira, um silêncio que se diferencia de outros silêncios, porque esse diz, e diz muito do que vai acontecer. Ela sorri, e lembra ocasionalmente de arrumar espaço pra respirar. Ele se aproxima - será que posso? Ela responde que sim, com o olhar. Ele dá mais um passo, solta as malas, sem pensar. Pra quê servem os pensamentos num momento desse? Até os céticos teriam que concordar. Mas voltemos à cena. Ele a abraça e ergue do chão, começando a girar. Ela segura forte no pescoço dele, cruza suas mãos num nó que não quer desatar, que não devia nunca desatar. Olha nos olhos dele, vê o brilho deles e pede aos búzios, às cartas, às estrelas cadentes, aos orixás, que não se apague, nunca se apague o brilho do olhar dele, e que a verdade do sorriso dela não fique fosca, surda, muda. Que aquele momento seja eterno, que volte em todos os olhares de cada dia de cada briga de cada despedida de cada reencontro de cada noite, amém. Ele não consegue falar, não consegue juntar as palavras, obedecer a sintaxe, lembrar da gramática, como que se faz mesmo ? Junta o pronome pessoal, primeira pessoal do singular, o verbo amar na primeira pessoa, no presente, e o pronome, aquele, de tratamento, de tratar, tratar o outro, tratar bem o outro. Isso. E-u-a-m-o-v-o-c-ê, ele soletra no pensamento, e de alguma forma, a mesma frase ecoa na mente dela, como se já tivesse sido dita, quem sabe foi. Quer voar? Ele consegue sussurrar. Quero, depois que eu soltar o céu.


Clara Delfino

Ah, eu senti falta de ser doce... Peguei esse texto que tava quase pronto e mudei um pouco, ficou isso aí (: