quinta-feira, 30 de setembro de 2010

algo me diz ;

Eu preciso muito, muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você.

Caiozinho s2

A impressão que tenho é que nunca vai passar. Que a cicatriz não fecha. Que só de esbarrar, sangra.

Caiozinho s2

algo me diz que fecha , que a cicatriz fecha sim , algo me diz que eu não estou e não estarei condenada a passar a vida toda com medo do esbarrão , com medo de alguém tocar mais fundo , algo me diz que as tempestades passam , podem virar dilúvios ou eras do gelo , mas passam , um dia passam .

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

artigo definido ;


Você sabe que poderia ser mais ? Você sabe que poderia ser tudo ? O motivo dos meus sorrisos , a relevância em cada música , as batidas violentas e reveladoras do meu coração ? Meu sorriso mais bonito , meu olhar mais profundo , meu sentimento mais sincero , eu te daria sem hesitar , Acariciaria teu rosto , te faria cafuné , roubaria tuas lágrimas , devolveria em sorrisos .
Você poderia ser meu sol , eu tua inspiração , nós seríamos bons juntos , você com sua calma , seu silêncio oportuno , sua paz , e eu assim mesmo , imperfeita , inconstante , impulsiva . Poderíamos nos completar de alguma forma , talvez você não veja , mas poderíamos .
Quero que deixes de ser assim , artigo indefinido e passe a ser artigo definido , pronome possessivo . Um garoto , o garoto , meu garoto . Meu amor . Quero transformar o verbo querer em tantos outros ... poder , ver , te ter . Te transformar em complemento-nominal-verbal-real, o que te trouxer pra mim . Vem comigo ? Me ajuda a consertar a gramática , a achar um sentido , a encontrar abrigo .

Clara Delfino

...




Peyton: Brooke, sinto muito. Eu sei que você ainda sente alguma coisa pelo Lucas.
Brooke: Sentimento-fantasma. Tipo, quando se perde a perna, mas tenta coçar. O Lucas é a minha perna que gangrenou e foi amputada.

nossa esperança

HAMBURGO, 11 DE OUTUBRO DE 1994

Sei que é uma ousadia dirigir-me ao senhor assim, desta maneira meio estabanada. Aprendi na escola, há tantos anos que já esqueci, que deveria dirigir-me ao senhor como "Vossa Excelência" ou algo assim. Mas hoje, ao despertar muito cedo neste Hotel Schwanenwik, que parece saído de um filme dos anos 40, espiando pela janela as árvores começando a ficar douradas no parque em frente ao lago, me surpreendi pensando com força e fé no senhor e no Brasil.
Nos últimos dias, li nos jornais europeus que o senhor foi eleito sem necessidade de um segundo turno. Não votei no senhor. Aliás, não votei em ninguém. Estava em trânsito, em Porto Alegre, e embarquei para Frankfurt um dia após as eleições, quando a sua vitória já era dada como certa. E embora talvez o senhor não fosse meu candidato, fico feliz. Devo dizer que o senhor me parece muitíssimo mais, digamos, preparado, que todos os outros seus antecessores. Amigos europeus e desconhecidos que fazem perguntas nas leituras e debates que ando fazendo por aqui com outros escritores também parecem pensar o mesmo. Por favor, não nos decepcione.
É grande a nossa esperança, senhor presidente. E falo não como escritor ou jornalista, mas como brasileiro comum. Tão comum que nada tenho e, nos últimos anos, não fosse direitos autorais vindos do estrangeiro e a lealdade de muitos amigos, estria desempregado e passando dificuldades. Porque ando pelas ruas, porque entro nos bares e vejo as caras sofridas das pessoas pelas esquinas, posso dizer ao senhor com segurança: estamos cansados, senhor presidente. E é no senhor que confiamos, acima de tudo, para dar jeito nesse grande cansaço que já vem de anos.
Vem do golpe militar que cortou os sonhos de uma geração inteira; vem daquela morte misteriosa de Tancredo Neves; vem do desastre de José Sarney e principalmente da vergonhosa catástrofe que foi Fernando Collor.

Vem de muito antes disso, talvez desde que os colonizadores mataram nossos índios, dizimaram nossas matas, levaram nosso ouro. Há quase 500 anos, sempre fomos escravos, roubados, humilhados. Nos últimos tempos esse cansaço nosso aumentou, com a impunidade dos corruptos e o empreguismo fácil que se tornou a política. Os senhores ganham muito bem, senhor presidente, e a maioria de nós morre de fome.
O que quero pedir, quando penso no senhor, olhando pela janela aberta desta cidade estrangeira, não tem nada de extraordinário. Nós queremos comida, senhor presidente. Queremos trabalho, escolas. Queremos saúde e um mínimo de segurança para andarmos nas ruas sem o risco de sermos atingidos por alguma bala perdida. Queremos um mínimo de honestidade, e esperamos que o senhor reforce a nossa auto-estima como brasileiros, não através de um nacionalismo irracional e perigoso, mas apenas por termos satisfeitas as nossas necessidades humanas básicas.
Por favor, não gaste à toa o dinheiro dos nossos impostos. Por favor, preste atenção na infinidade de mendigos que apodrecem pelas ruas de nossas cidades. Não queremos ser o Haiti nem Ruanda, mas apenas um país decente. E temos medo enorme que logo após a sua posse, esse Plano Real que tanto ajudou a elegê-lo, desabe sobre nossas cabeças com uma inflação de 100% ao mês. Estamos tão cansados de mentiras, promessas, aparências, fraudes, ilusões. Nós queremos gostar do senhor, senhor presidente, queremos tanto confiar no senhor. Nós entregamos os nossos destinos nas suas mãos, com boa fé e boa vontade.
E é por tudo isso e muito mais que, daqui de muito longe, quase na Escandinávia, tenho a ousadia de concluir pedindo: pense bem, senhor presidente, no que vai fazer com as nossas vidas. Pode ser bom, isso a ser feito, pode ser nobre e grandioso. Depende um pouco de nós, que temos sido tão pacientes, mas depende principalmente do senhor. Seja justo, honesto, amoroso. Boa sorte.

O Estado de S. Paulo, 16/10/1994

Caiozinho s2


vocês não acham uma pena que isso não tenha se concretizado ? vocês não acham que deviam pensar bem pra que uma frustração tão bela e triste como essa não se repita ? você já pensou sobre domingo ?

Esse poço tem fundo ?

Houve um tempo em que se ensinava às crianças que, se a gente furasse um poço dias e dias e anos e anos a fio, chegaríamos ao Japão (ou era China que diziam?) e estaríamos no meio de crianças orientais de olhos puxados e costumes muito diferentes. Menina de cidade do interior, só conheci a maravilhosa cultura oriental muitos anos depois.

Adulta, descobri que a vida tem outros poços, nem todos divertidos. Um deles agora se afunda como se não tivesse chão: o poço dos escândalos nossos de cada dia, o poço da nossa desolação e dos nossos enganos. Percebo que, a pior das situações, raras pessoas ainda se dão ao trabalho de se preocupar de verdade. A maioria, talvez para suportar tantos desencantos, dá de ombros dizendo que é isso mesmo, as coisas são assim, no Brasil é assim, no mundo inteiro está ficando assim, e afinal "não tem problema".

Propriedades produtivas são invadidas sob proteção não se sabe de quem: ninguém parece fazer nada. Congressistas e senadores fazem farras inimagináveis quando ainda acreditávamos neles: não tem problema. Mensaleiros continuam sendo processados, mas não sei que tenham perdido a honra, ou vivam execrados. Agora, no Supremo Tribunal do país, ministros batem boca diante de telespectadores atônitos: parece que perdemos o último baluarte da nossa esperança.
Mas fiquem tranquilos, não tem problema.

Não devemos nos espantar com a generalizada quebra de autoridade. Tudo numa boa, por aqui é assim. Sem stress, que dá rugas, sem exageros, que a gente vira um chato. Que povo estamos nos tornando? Ignoramos essas circunstâncias, que agora não são apenas corrupção escancarada e impune, mas falta de compostura de quem era a última instância de nossa vida problemática, derradeira inspiração para a desorientada juventude nossa. Mas não ignoramos por sermos ignorantes, e sim porque nos dizem que está tudo numa boa, e não adianta reclamar. A gente se acomoda, se distrai, olha para o outro lado, porque a capacidade de reagir nos foi lentamente, subliminarmente, retirada. Não por sermos um povo acomodado ou superficial, mas mergulhado num estado geral de desinteresse – e isso contagia feito uma nova doença, uma gripe de derrotados nem sempre suínos. Algo negativo e sombrio perpassa este país, e nem os trios elétricos nem zabumbas nem carnavais ou belas danças típicas do interior conseguem disfarçar.

É frágil uma democracia na qual pobres e ricos, jovens e velhos, reagem com um dar de ombros quando se fala nesses desmandos, nesses abusos, nessas verdadeiras loucuras – as que sabemos e as piores, que ainda ignoramos. (Pois, quanto à chamada farra das passagens, dizem os que sabem das coisas que o pior vai permanecer oculto, não por último para preservar, em alguns casos, a solidez da santa família brasileira.) A gente ou sabe ou imagina, e comenta como se fosse engraçado: quem ainda acredita nos políticos? Quem ainda tem fé nas instituições? Olhe só o que está acontecendo por aí, e nem é de hoje. Nem vai se corrigir, ao contrário: cada vez aparece algo mais sério, mais sinistro, objeto de reais ou falsas investigações tantas vezes desfocadas e ineficientes, ou aparentemente rigorosas. Sentimos uma lufada de otimismo, agora, sim, a coisa vai endireitar... mas logo se desfaz diante do comentário que vem do alto: tudo resolvido, não tem problema.

Tem problema. Tem muito problema. Não é normal, não é assim o Brasil, não são assim os brasileiros. A falta de autoridade de tantos líderes contamina feito uma gosma escura, uma doença maligna corroendo a decência neste país, tirando-nos discernimento e capacidade de julgar. Fingimos não saber, fingimos nem ligar. Aos mais simples, como às crianças e jovenzinhos, é repetido que está tudo bem, tudo em ordem. "Não tem problema." Assim, descrentes e céticos, protegem-se com um precoce cinismo, que afinal é um jeito (pobre) de sobreviver na selva moral.



Lya Luft

Aquarelas

Hoje não , não quero almas pequenas , não quero abraços falsos , propaganda eleitoral , chuchu e noticiários tristes , nada disso quero hoje . Pessoas que machucam , coisas que acinzentam coisas , desculpas inventadas , gente infeliz que só sorri , tanques de guerra , tudo isso , vá pra longe de mim . E aquela TV , que além de não esconder minha solidão diminui meu QI , não precisa trazer de volta , deixe aí . Eu quero o sorriso da criança , o que sei que está voltado pra mim e não pros cifrões . Quero a luz do sol , que ilumina qualquer um apesar dos seus lotes de dor e culpa ,quem sabe não ilumine assim , sem distinção , exatamente por isso . Eu quero marshmelow com chocolate , quero cores , aquarelas , laços , abraços . Reinventar a palavra viver . Aprender todos os dias o significado de amar . E seguir assim , caminhando , sem perceber a existência do caminho .

Clara Delfino

Cansei


Eu cansei . Desde o primeiro olhar isso já tava claro , era uma questão de tempo , um tempo que já se foi . Se foi como as certezas que eu tinha , se foi como o bem que você me fazia , se foi como a tua ausência . Tua ausência , já nem lembro dela , é estranho ... eu sempre pensei que ela desapareceria quando você estivesse ao meu lado , mas foi muito antes , afinal , você nunca esteve e ela já se foi . Ela sumiu com o afeto que não foi dado , com as promessas que não foram cumpridas , com essa coisa toda que não foi , com um você e eu , que já não somos nós .

Clara Delfino