Ele olha pra ela. Ela olha pra ele. Câmera lenta, ninguém respira, um silêncio que se diferencia de outros silêncios, porque esse diz, e diz muito do que vai acontecer. Ela sorri, e lembra ocasionalmente de arrumar espaço pra respirar. Ele se aproxima - será que posso? Ela responde que sim, com o olhar. Ele dá mais um passo, solta as malas, sem pensar. Pra quê servem os pensamentos num momento desse? Até os céticos teriam que concordar. Mas voltemos à cena. Ele a abraça e ergue do chão, começando a girar. Ela segura forte no pescoço dele, cruza suas mãos num nó que não quer desatar, que não devia nunca desatar. Olha nos olhos dele, vê o brilho deles e pede aos búzios, às cartas, às estrelas cadentes, aos orixás, que não se apague, nunca se apague o brilho do olhar dele, e que a verdade do sorriso dela não fique fosca, surda, muda. Que aquele momento seja eterno, que volte em todos os olhares de cada dia de cada briga de cada despedida de cada reencontro de cada noite, amém. Ele não consegue falar, não consegue juntar as palavras, obedecer a sintaxe, lembrar da gramática, como que se faz mesmo ? Junta o pronome pessoal, primeira pessoal do singular, o verbo amar na primeira pessoa, no presente, e o pronome, aquele, de tratamento, de tratar, tratar o outro, tratar bem o outro. Isso. E-u-a-m-o-v-o-c-ê, ele soletra no pensamento, e de alguma forma, a mesma frase ecoa na mente dela, como se já tivesse sido dita, quem sabe foi. Quer voar? Ele consegue sussurrar. Quero, depois que eu soltar o céu.
Clara Delfino
Ah, eu senti falta de ser doce... Peguei esse texto que tava quase pronto e mudei um pouco, ficou isso aí (:
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