
Nicotina . Nico . Tina . Nome de homem , de mulher , de morte. A garota suga a última dose do veneno , sabendo que em algum lugar de si anseia que seja a última. Porque ela não pode entrar nas estatísticas ? Câncer, overdose , enfarto , será que morrer importa realmente ? Ou será que ela já está num estado de morte-vida que pode ser ainda mais doloroso que a própria morte ? Afinal de contas , morrer dói ? Não , aposto que não , e se doer ... já sou acostumada com a dor , viver dói .
Ri com seu pensamento macabro , e joga no ar toda a fumaça vinda do ultimo cigarro da carteira que comprou de manhã , e que, não contem a ninguém , ela detesta :x fuma só por fumar , só por saber que faz mal , só pra mostrar pro mundo o quanto é forte e indiferente , tá , menos , só pra fingir pro mundo que é forte e indiferente , o que ela queria mesmo era que o veneno com nome de casal invadisse suas veias e a levasse de vez pra qualquer lugar , onde as lembranças não a alcançassem , onde o cheiro dele não a alcançasse . Dele . Ele . Por trás de toda dor existe a causa dela , e era tudo que ela queria era expulsar ele dela junto com a fumaça , tudo que ela queria era não precisar estar bêbada pra não tá pensando nele , tudo que ela queria era nunca tê-lo conhecido . Respira fundo , deixa que o cheiro invada cada parte do seu corpo , sempre detestou aquele cheiro , sempre achou saída pra pessoas fracas , se viu fraca diante da dor , diante de tudo que ele disse . As palavras lhe vinham a cabeça como um disco repetido que não quer parar de tocar ' é melhor a gente se afastar , não tá mais dando certo ' , parece castigo , pelo silêncio que a tomou quando ela ouviu isso , ficou sem reação não conseguiu dizer nada , não conseguiu impedir que as lágrimas rolassem pelo seu rosto , e se odiou por isso . agora ? agora ele vem desistir ? depois de tudo que fiz ? depois de ter ignorado os avisos das minhas amigas , de ter traído a confiança dos meus pais , de ter perdido pra sempre alguém que realmente me amava ? , engoliu seco , murmurou um 'tudo bem' e saiu de lá , jurando pra si que nunca mais choraria por ninguém . E desde esse dia nunca quis nada além de morrer . E agora tava ali , naquele praia , que naquela hora tava quase vazia , pensando em como foi que se tornou naquilo , no morto vivo , que vivia a base de muito uísque e aquela droga com estranho nome de casal , que ironia , nome de amor , que é o que levou a ela a ficar ali , daquele jeito . Amor ... amor ... será amor mesmo isso que machuca , que destrói , que transforma a gente em nada ? que acaba com fé , esperança , motivação ou qualquer outro tio de sinal de vida ? Ela respirou fundo , dessa vez sentiu ar entrando em seus pulmões , provou da sensação , agora rara , de tá quase totalmente sóbria , fechou os olhos , sentiu a brisa tocando seu rosto , e falou , sem nem perceber que falava ... 'nn era amor' , e de repente começou a rir , como a muito tempo não fazia , jogou suas coisas no chão e correu pra praia , dando piruetas e gargalhadas , quem a visse ia pensar que ela era louca , e o que importa ? muito mais do que louca , agora sou livre , pensou antes de mergulhar .
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