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terça-feira, 18 de maio de 2010

Texto de cinco minutos .


Cinco minutos , escovar os dentes , pentear o cabelo , comer um chocolate , atender o telefone , desligar o computador , verificar o gás , regar as plantas , escrever um bilhete , tomar um drinque , fazer um filho , morrer .

Trezentos segundos , não precisava mais que isso , perdeu a mãe por míseros trezentos segundos . Qualquer uma dessas coisas a mãe podia ter feito , antes de ir buscar-la na escola naquela tarde fria de inverno , passar no sinal vermelho e ... morrer . Os pensamentos lhe atormentavam , a culpa gritava .

E pensar que ela mesmo podia ter ligado ... e pensar que hoje a mãe estaria ao seu lado , um telefonema , cinco minutos . Se sua mãe tivesse acessado a internet e lido um texto como esse não seria ausência , cinco minutos .

Ela segura um frasco de remédio com uma tarja preta que já lhe era conhecida , vê bem o nome que tá no frasco " DALMADORM " , lê em voz alta , sonoro , assustador , quase bonito . Olha pro computador de novo , olha bem pra frase destacada por ela mesma ... " cinco comprimidos ... cinco minutos ... fatal . " Ergueu os comprimidos e os engoliu sem hesitar , se sentou em frente a janela e ficou a observar , e a absorver , o seu último pôr-do-sol .



A noção de final feliz pra ela pode ser diferente da sua .

quarta-feira, 12 de maio de 2010

gelo derrete


A menina olhava silenciosamente pro palco , com um sorriso ansioso fitava as luzes a cintilar no escuro enquanto o desfecho do show não acontecia . Um calafrio percorreu-lhe o corpo e ela respirou fundo, ela podia imaginar qual seria a próxima música a tocar , a mais linda , a que parecia ter sido feita na medida da dor dela . Mas ela não ia chorar , a frieza lhe cercava, lhe dizendo que nem se ela quisesse choraria , e ela não queria , não depois de toda a personagem que ela incorporou pra disfarçar o fato de não saber na verdade quem é , ou o que quer . Ela não ia estragar tudo por uma música , não mesmo .

Ruas , igrejas , cemitérios , casas de show , horóscopos , blogs , cidades , corpos , livros , corações . Em todos esses caminhos ela se procurou , e nenhum deu resultado algum , não havia espaço para a as tantas perguntas que tinha e não havia resposta que lhe cabisse . Os melhores especialistas da dor e da dúvida ela procurou, e de novo se frustrou . Até que desistiu de tentar e resolveu fingir que as perguntas não existiam, apesar delas reivindicarem seu direito de existir com alguns gritos irritantes na sua mente .

E agora estava ali , naquele show , cercada de pessoas que lhe importavam, mas sabia que nenhuma tinha dimensão dos seus sentimentos. Se sentiu sozinha no meio da multidão , sentiu frio e tristeza na absurda euforia. O seu olhar vagava de olhar em olhar, procurando um que realmente a visse. Ficava abismada com a aparente sinceridade que via em cada sorriso , em cada rosto , tão felizes ... E de novo se perguntava porque ela não podia ser assim , simples . Se perguntou porque teve que se tornar um cubo de gelo com máscaras , das mais diversas possíveis , pra poder estar ali sem estar cabisbaixa ou aos prantos .

A melodia começou, e as pessoas que estavam ao seu redor começaram a dançar , pular e cantar junto. Ela não , dessa vez se permitiu fazer o que realmente queria fazer , apesar de insistir nessa bobagem de que não sabia o que era . Queria era se recolher com suas lembranças e ficar a passar-las uma a uma até não ver mais sentido nisso . Ficou a observar e absorver .

Não demorou muito e a música já tinha invadido cada célula do seu corpo e lhe trazido vida de novo , foi uma sensação maravilhosa , a de acordar de um coma e estar experimentando cada sensação pela primeira vez . Viva , ela estava viva e nem tinha notado . Se sentiu a própria fênix ressurgindo das cinzas O ultimo solo da guitarra soava distante , e a garota das perguntas já não se sentia mais ali , parecia que estava em uma dimensão a parte , ouvindo tudo de longe . pela primeira vez no show ouviu uma frase inteira da música , sem gargalhadas , nem passos de dança , sem nada , só ela e o vocalista , cantando quase que encarando ela . SÓ ENQUANTO EU RESPIRAR , VOU ME LEMBRAR DE VOCÊ ... ENQUANTO EU RESPIRAR ♫ . A última música , a unica frase , e a realidade lhe atingiu como um tapa , ela não tinha esquecido ele , e nunca ia esquecer , só tinha que saber o óbvio , ele fazia parte do seu passado , e só , nem era bom o suficiente pra estar no presente , nem queria . Finalmente a verdade , finalmente algum sentido naquilo , por isso o vazio , por isso todo o resto , fingir que não existia dor ou saudade não as anulava , só as camuflava , e isso não era o suficiente .

Encostou a mão na face e viu que chorava , a quanto tempo não chorava ? Já nem se lembrava mais , sorriu e ficou feliz como uma criança fica depois de achar a resposta da equação , já não era mais 'a menina das perguntas' , era só a menina , livre pra fazer o que quisesse com o resto do título , e ela tinha muito a fazer , 'ah se tenho' , pensou antes das luzes finalmente se acenderem e o show acabar .

sexta-feira, 12 de março de 2010

nicotina ;



Nicotina . Nico . Tina . Nome de homem , de mulher , de morte. A garota suga a última dose do veneno , sabendo que em algum lugar de si anseia que seja a última. Porque ela não pode entrar nas estatísticas ? Câncer, overdose , enfarto , será que morrer importa realmente ? Ou será que ela já está num estado de morte-vida que pode ser ainda mais doloroso que a própria morte ? Afinal de contas , morrer dói ? Não , aposto que não , e se doer ... já sou acostumada com a dor , viver dói .

Ri com seu pensamento macabro , e joga no ar toda a fumaça vinda do ultimo cigarro da carteira que comprou de manhã , e que, não contem a ninguém , ela detesta :x fuma só por fumar , só por saber que faz mal , só pra mostrar pro mundo o quanto é forte e indiferente , tá , menos , só pra fingir pro mundo que é forte e indiferente , o que ela queria mesmo era que o veneno com nome de casal invadisse suas veias e a levasse de vez pra qualquer lugar , onde as lembranças não a alcançassem , onde o cheiro dele não a alcançasse . Dele . Ele . Por trás de toda dor existe a causa dela , e era tudo que ela queria era expulsar ele dela junto com a fumaça , tudo que ela queria era não precisar estar bêbada pra não tá pensando nele , tudo que ela queria era nunca tê-lo conhecido . Respira fundo , deixa que o cheiro invada cada parte do seu corpo , sempre detestou aquele cheiro , sempre achou saída pra pessoas fracas , se viu fraca diante da dor , diante de tudo que ele disse . As palavras lhe vinham a cabeça como um disco repetido que não quer parar de tocar ' é melhor a gente se afastar , não tá mais dando certo ' , parece castigo , pelo silêncio que a tomou quando ela ouviu isso , ficou sem reação não conseguiu dizer nada , não conseguiu impedir que as lágrimas rolassem pelo seu rosto , e se odiou por isso . agora ? agora ele vem desistir ? depois de tudo que fiz ? depois de ter ignorado os avisos das minhas amigas , de ter traído a confiança dos meus pais , de ter perdido pra sempre alguém que realmente me amava ? , engoliu seco , murmurou um 'tudo bem' e saiu de lá , jurando pra si que nunca mais choraria por ninguém . E desde esse dia nunca quis nada além de morrer . E agora tava ali , naquele praia , que naquela hora tava quase vazia , pensando em como foi que se tornou naquilo , no morto vivo , que vivia a base de muito uísque e aquela droga com estranho nome de casal , que ironia , nome de amor , que é o que levou a ela a ficar ali , daquele jeito . Amor ... amor ... será amor mesmo isso que machuca , que destrói , que transforma a gente em nada ? que acaba com fé , esperança , motivação ou qualquer outro tio de sinal de vida ? Ela respirou fundo , dessa vez sentiu ar entrando em seus pulmões , provou da sensação , agora rara , de tá quase totalmente sóbria , fechou os olhos , sentiu a brisa tocando seu rosto , e falou , sem nem perceber que falava ... 'nn era amor' , e de repente começou a rir , como a muito tempo não fazia , jogou suas coisas no chão e correu pra praia , dando piruetas e gargalhadas , quem a visse ia pensar que ela era louca , e o que importa ? muito mais do que louca , agora sou livre , pensou antes de mergulhar .