quarta-feira, 12 de maio de 2010

gelo derrete


A menina olhava silenciosamente pro palco , com um sorriso ansioso fitava as luzes a cintilar no escuro enquanto o desfecho do show não acontecia . Um calafrio percorreu-lhe o corpo e ela respirou fundo, ela podia imaginar qual seria a próxima música a tocar , a mais linda , a que parecia ter sido feita na medida da dor dela . Mas ela não ia chorar , a frieza lhe cercava, lhe dizendo que nem se ela quisesse choraria , e ela não queria , não depois de toda a personagem que ela incorporou pra disfarçar o fato de não saber na verdade quem é , ou o que quer . Ela não ia estragar tudo por uma música , não mesmo .

Ruas , igrejas , cemitérios , casas de show , horóscopos , blogs , cidades , corpos , livros , corações . Em todos esses caminhos ela se procurou , e nenhum deu resultado algum , não havia espaço para a as tantas perguntas que tinha e não havia resposta que lhe cabisse . Os melhores especialistas da dor e da dúvida ela procurou, e de novo se frustrou . Até que desistiu de tentar e resolveu fingir que as perguntas não existiam, apesar delas reivindicarem seu direito de existir com alguns gritos irritantes na sua mente .

E agora estava ali , naquele show , cercada de pessoas que lhe importavam, mas sabia que nenhuma tinha dimensão dos seus sentimentos. Se sentiu sozinha no meio da multidão , sentiu frio e tristeza na absurda euforia. O seu olhar vagava de olhar em olhar, procurando um que realmente a visse. Ficava abismada com a aparente sinceridade que via em cada sorriso , em cada rosto , tão felizes ... E de novo se perguntava porque ela não podia ser assim , simples . Se perguntou porque teve que se tornar um cubo de gelo com máscaras , das mais diversas possíveis , pra poder estar ali sem estar cabisbaixa ou aos prantos .

A melodia começou, e as pessoas que estavam ao seu redor começaram a dançar , pular e cantar junto. Ela não , dessa vez se permitiu fazer o que realmente queria fazer , apesar de insistir nessa bobagem de que não sabia o que era . Queria era se recolher com suas lembranças e ficar a passar-las uma a uma até não ver mais sentido nisso . Ficou a observar e absorver .

Não demorou muito e a música já tinha invadido cada célula do seu corpo e lhe trazido vida de novo , foi uma sensação maravilhosa , a de acordar de um coma e estar experimentando cada sensação pela primeira vez . Viva , ela estava viva e nem tinha notado . Se sentiu a própria fênix ressurgindo das cinzas O ultimo solo da guitarra soava distante , e a garota das perguntas já não se sentia mais ali , parecia que estava em uma dimensão a parte , ouvindo tudo de longe . pela primeira vez no show ouviu uma frase inteira da música , sem gargalhadas , nem passos de dança , sem nada , só ela e o vocalista , cantando quase que encarando ela . SÓ ENQUANTO EU RESPIRAR , VOU ME LEMBRAR DE VOCÊ ... ENQUANTO EU RESPIRAR ♫ . A última música , a unica frase , e a realidade lhe atingiu como um tapa , ela não tinha esquecido ele , e nunca ia esquecer , só tinha que saber o óbvio , ele fazia parte do seu passado , e só , nem era bom o suficiente pra estar no presente , nem queria . Finalmente a verdade , finalmente algum sentido naquilo , por isso o vazio , por isso todo o resto , fingir que não existia dor ou saudade não as anulava , só as camuflava , e isso não era o suficiente .

Encostou a mão na face e viu que chorava , a quanto tempo não chorava ? Já nem se lembrava mais , sorriu e ficou feliz como uma criança fica depois de achar a resposta da equação , já não era mais 'a menina das perguntas' , era só a menina , livre pra fazer o que quisesse com o resto do título , e ela tinha muito a fazer , 'ah se tenho' , pensou antes das luzes finalmente se acenderem e o show acabar .

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