Um grito , e tudo mudou . Um único grito , e seu mundo fantasiado de vida-politicamente-correta-e-feliz ruiu . Ali naquela tarde ensolarada de março , naquele calor escaldante , naquele trânsito infernal , ela sentiu todo o seu corpo estremecer ao ver o que seus olhos viam . Um carro a direita do seu , que , tinha uma chance absurda de ser o seu bateu em uma menininha , que se apressava com a mãe pra ir a escola , o carro tava com o direito , é verdade . Mas a menininha acenou , parecia ter um super poder , parecia acreditar que o homem do carro entenderia que ela realmente tava atrasada pra aula e que a mãe dela tava irritada , e triste demais ultimamente , e que ela não queria mais que ela chorasse de noite , que ela queria ser boa o suficiente pra fazer ela feliz , ela achava que aquela rosa que ela pegou no caminho da escola , e que não teve tempo de entregar a mãe ia fazer a diferença , ela não entendia que não era culpa dela , e que não podia mudar nada , ela não entendia que o homem do carro não podia entender isso , nem nada . Ela não entendia o quão cego alguém que vê pode ser . Então ela acenou , e o homem do carro , afundado nos seus próprios problemas adultos e grandiosos , sempre grandiosos , estava cego pra tudo que ele não achasse grandioso , estava cego pra qualquer aceno , qualquer beleza , qualquer magia .
E ela , a mulher do carro do lado , que poderia ter sido o seu , observava com choque a poça de sangue em que se afundava a menininha , observava o desespero da mãe dela , e depois , não , por não ter o que olhar , mas por se sentir atraída a olhar pra’li , observava o sol , o sol nos cacos de vidro , o sol dos cacos de vidro , e não tinha mais como desviar . Havia uma menina , e uma rosa , e uma esperança , e agora só há o vermelho , a imensidão que ele pode ter . Agora só há a intensidade de um grito , cacos de sol , e uma rosa que de rosa passou a pingar vermelho .
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