domingo, 3 de outubro de 2010

uma cena qualquer

Sábado de manhã , longa noite de sexta , noite que não acabou . Um homem e uma mulher sentados numa mesa de uma lanchonete qualquer , depois de ter passado a noite sentado em outra mesa de um bar qualquer . Palavras trocadas . Ela se irrita , se levanta , o estapeia - não como cena de filme , entenda bem , ela lhe deu aquele tapa com a mínima elegância e dignidade que a raiva dela lhe permitiu - e sai . Silêncio . Ela pega um táxi , lágrimas escorrendo , maquiagem manchada , último trocado gasto naquilo , que noite horrível . Ele continua sentado , imóvel , indiferente , ela e mais uma a caminho do banheiro , foi uma noite razoável , faz os cálculos , nem gastou tanto . Ela chega em casa , não consegue colocar a chave na fechadura , treme , de raiva , de amor , de ódio . Ele chama um garçom , mais uma dose , olha pras pessoas da mesa , começa a falar de política . Ela entra , joga o salto pra um canto e chora , amargamente , sente que vai passar o dia todo assim , sente certo . Ele combina de ir pra uma chácara mais tarde , muitas mulheres , ouviu falar . Ela o ama - nunca ouviu falar de amor próprio , talvez em um daqueles livros auto-ajuda que tem ? não sabe , prestou atenção não - ele se ama - nunca ouviu falar de amor .

Clara Delfino

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