domingo, 24 de outubro de 2010

À Pátria Amada

Salve, salve. Como está? Melhorou?As notícias que recebo de seus filhos não são boas, mas sei que você é forte e há de vencer mais essa. Tantas crises e traições seguidas devem estar abalando você, mas saiba que é amada, idolatrada e jamais será abandonada.Pátria minha, posso ser sincera com você?Você é rica, gentil e generosa, mas dá muita bandeira, por isso abusam da sua boa vontade. Aproveitadores prometem servi-la e roubam de seus cofres. Covardes juram protegê-la e atiram em sua gente pelas costas. Falam besteiras em seu nome, debocham de seus defeitos, sonegam o que lhe devem.Por outro lado, você nunca esteve tão livre. Tão respeitada pelas colegas. Sua beleza e sua simpatia sempre foram reconhecidas, mas agora elogiam também sua inteligência e seu bom gosto. Copiam o que você veste, querem saber a fonte da sua energia, até depilam-se à sua maneira.Portanto, querida, talvez seu problema seja mesmo de auto-estima. Você é virginiana, de 7 de setembro, certo? Então está sempre desconfiada e insegura. Não consegue tomar decisões e, muitas vezes, foge às responsabilidades.Assuma, Pátria, que você é legal, mas vacila. Aprenda a punir quem abusa de seus favores e a tratar bem quem procura seus serviços. Afaste-se dos puxa-sacos e abrace seus desvalidos. Seus verdadeiros amigos não estão nos banquetes em sua honra, mas nos bobocas que calçam chuteira com você. A hipocrisia, maldita praga que seu ardor atrai, é a raiz dos seus problemas.Mas, calma, tudo tem jeito, você já resistiu bravamente a dias piores. Quando nem se sabia quanto roubavam de você. Quando sujavam seu nome em porões de tortura. Quando seu dinheiro valia tão pouco que era motivo de piada.E hoje, Pátria, você não carece de grandes atos de heroísmo, mas de pequenos gestos de respeito. Não precisa de novos salvadores, mas dos velhos sobreviventes. Inspire-nos a ver que não somos coitadinhos, somos até sortudos. Vemos tornados, terremotos e bombas terroristas pela televisão. Moramos de frente para a praia, com o mais verde quintal do mundo. Se temos a corrupção como mal encruado, que seja essa a nossa luta. A grande batalha que venceremos em seu nome.Freud disse: "Primeiro, olhe bem as profundezas da sua alma e aprenda a saber quem você é; depois, entenda o que há de errado com você". Cazuza fez uma música dizendo a mesma coisa, lembra?Por mim, você abandonava de vez esse positivismo cafona, que um dia lhe impuseram como lema. Não é pela ordem que seus filhos se destacam pelo mundo, é pela bagunça e festa. O progresso? Vem naturalmente quando se vive em paz, num ambiente fértil. Se é necessário um mote para completar a lacuna, que o escolham de onde sua alma se manifesta: nos pára-choques de caminhão.Já imaginou? Você de verde e amarelo e, na faixa, em sua testa estrelada, escrito assim: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho". Ou simplesmente: "Existo porque insisto". É atrás da pompa dos palanques que se escondem seus inimigos.

Com amor, Fernanda Young

terça-feira, 5 de outubro de 2010

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Você me treinou tão bem . Todos aqueles jantares à luz de velas sozinha , todas aquelas viagens com apenas o fone de ouvido de companhia , todos aqueles planos adiados para talvez , para nunca , todos aqueles sonhos que você não me deixou sonhar . Todas as cartas que te escrevi fazendo o percurso curto e doloroso do meu caderno até a lata do lixo , isso é besteira , você ia dizer .

Tava bem claro , todas aquelas tuas conversas indiferentes , finais , premonitórias . Estava escrito que seria assim , você escreveu . E não serviu , toda sua frieza , indiferença e egoísmo não me afastaram , todo o treinamento se mostrou inútil .

Sinto sua falta como se você fosse presente antes de partir , como se as cartas tivessem sido entregues , as canções ouvidas , as palavras ditas . Teu treinamento não só não serviu como teve efeito contrário , tua ausência é tão concreta que já não é , você tá mais presente do que jamais foi , tua falta não me abandona mais .

Clara Delfino

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

só


Eu só quero alguém que pense em mim antes de dormir , e antes de acordar , e antes de sorrir e antes de querer . Cansei de meios-amores , de relacionamentos não classificáveis , de amizades com desejo , e amores com companheirismo , cansei de perguntas , quero respostas , e não me venha com a verdade é relativa ou outro qualquer pensamento hipócrita , quero coisas concretas e quero agora . Eu só quero alguém que olhe nos meus olhos e não precise dizer mais nada , mas mesmo assim diga , alguém que me tire desse caos , alguém que me faça sentir especial , quero alguém que me tire o fôlego , e que não precise se esforçar pra isso , alguém que me estremeça a alma , alguém que entenda minha urgência de vida , alguém que me dê um ombro pra chorar , uma boca pra beijar e um motivo pra existir .
Clara Delfino

domingo, 3 de outubro de 2010

Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.

uma cena qualquer

Sábado de manhã , longa noite de sexta , noite que não acabou . Um homem e uma mulher sentados numa mesa de uma lanchonete qualquer , depois de ter passado a noite sentado em outra mesa de um bar qualquer . Palavras trocadas . Ela se irrita , se levanta , o estapeia - não como cena de filme , entenda bem , ela lhe deu aquele tapa com a mínima elegância e dignidade que a raiva dela lhe permitiu - e sai . Silêncio . Ela pega um táxi , lágrimas escorrendo , maquiagem manchada , último trocado gasto naquilo , que noite horrível . Ele continua sentado , imóvel , indiferente , ela e mais uma a caminho do banheiro , foi uma noite razoável , faz os cálculos , nem gastou tanto . Ela chega em casa , não consegue colocar a chave na fechadura , treme , de raiva , de amor , de ódio . Ele chama um garçom , mais uma dose , olha pras pessoas da mesa , começa a falar de política . Ela entra , joga o salto pra um canto e chora , amargamente , sente que vai passar o dia todo assim , sente certo . Ele combina de ir pra uma chácara mais tarde , muitas mulheres , ouviu falar . Ela o ama - nunca ouviu falar de amor próprio , talvez em um daqueles livros auto-ajuda que tem ? não sabe , prestou atenção não - ele se ama - nunca ouviu falar de amor .

Clara Delfino

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Epitáfio Para o Século XX

1. Aqui jaz um século
onde houve duas ou três guerras
mundiais e milhares
de outras pequenas
e igualmente bestiais.
2. Aqui jaz um século
onde se acreditou
que estar à esquerda
ou à direita
eram questões centrais.
3. Aqui jaz um século
que quase se esvaiu
na nuvem atômica.
Salvaram-no o acaso
e os pacifistas
com sua homeopática
atitude
– nux vômica.
4. Aqui jaz o século
que um muro dividiu.
Um século de concreto
armado, canceroso,
drogado, empestado,
que enfim sobreviveu
às bactérias que pariu.
5. Aqui jaz um século
que se abismou
com as estrelas
nas telas
e que o suicídio
de supernovas
contemplou.
Um século filmado
que o vento levou.
6. Aqui jaz um século
semiótico e despótico,
que se pensou dialético
e foi patético e aidético.
Um século que decretou
a morte de Deus,
a morte da história,
a morte do homem,
em que se pisou na Lua
e se morreu de fome.
7. Aqui jaz um século
que opondo classe a classe
quase se desclassificou.
Século cheio de anátemas
e antenas, sibérias e gestapos
e ideológicas safenas;
século tecnicolor
que tudo transplantou
e o branco, do negro,
a custo aproximou.
8. Aqui jaz um século
que se deitou no divã.
Século narciso & esquizo,
que não pôde computar
seus neologismos.
Século vanguardista,
marxista, guerrilheiro,
terrorista, freudiano,
proustiano, joyciano,
borges-kafkiano.
Século de utopias e hippies
que caberiam num chip.
9. Aqui jaz um século
que se chamou moderno
e olhando presunçoso
o passado e o futuro
julgou-se eterno;
século que de si
fez tanto alarde
e, no entanto,
– já vai tarde.
10. Foi duro atravessá-lo.
Muitas vezes morri, outras
quis regressar ao 18
ou 16, pular ao 21,
sair daqui
para o lugar nenhum.
11. Tende piedade de nós, ó vós
que em outros tempos nos julgais
da confortável galáxia
em que irônico estais.
Tende piedade de nós
– modernos medievais –
tende piedade como Villon
e Brecht por minha voz
de novo imploram. Piedade
dos que viveram neste século
per seculae seculorum.

Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

algo me diz ;

Eu preciso muito, muito de você. Eu quero muito, muito você aqui de vez em quando nem que seja, muito de vez em quando. Você nem precisa trazer maçãs, nem perguntar se estou melhor. Você não precisa trazer nada, só você mesmo. Você nem precisa dizer alguma coisa no telefone. Basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio. Juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. Mas eu preciso muito, muito de você.

Caiozinho s2

A impressão que tenho é que nunca vai passar. Que a cicatriz não fecha. Que só de esbarrar, sangra.

Caiozinho s2

algo me diz que fecha , que a cicatriz fecha sim , algo me diz que eu não estou e não estarei condenada a passar a vida toda com medo do esbarrão , com medo de alguém tocar mais fundo , algo me diz que as tempestades passam , podem virar dilúvios ou eras do gelo , mas passam , um dia passam .