terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colocaram

Colocaram na tua cabeça que o oriental é retrógrado e violento, que o negro é ladrão, que o branco é preconceituoso, que a mulher é incapaz, que o nordestino é burro, que o feio não merece amor. Colocaram na tua cabeça que a paz não é algo que se constrói, e sim algo que surge do nada. Colocaram na tua cabeça que todo amor é eterno e que mesmo quando ele te joga na cara que não é assim, você tem que insistir em sofrer porque acabou. Colocaram na tua cabeça que todo fim dói (na minha também). Colocaram na tua cabeça que você deve amar ao próximo como a si mesmo, e você esquece o tempo todo que tem que ter essa parte de amor dispensada pra si, só ama o outro. Colocaram na tua cabeça que sexo é errado, mas guerra tem seus motivos (que valem mais do que vidas). Colocaram o inferno das culpas na tua cabeça. Colocaram uma porção de verdades absolutas na tua cabeça. Colocaram, inclusive, a idéia de que o mendigo só precisa de dinheiro, e que dispensar 5 minutos do teu tempo falando com ele colocaria em risco tua vida, como se viver já não resultasse em poder morrer. Colocaram na tua cabeça que ter um amor implica em não ter liberdade. Colocaram na tua cabeça que idéias prontas são melhores do que pensar e contestar as coisas, colocaram isso com um objetivo. Colocaram porque você deixou que colocassem.

Clara Delfino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Câmera lenta

Ele olha pra ela. Ela olha pra ele. Câmera lenta, ninguém respira, um silêncio que se diferencia de outros silêncios, porque esse diz, e diz muito do que vai acontecer. Ela sorri, e lembra ocasionalmente de arrumar espaço pra respirar. Ele se aproxima - será que posso? Ela responde que sim, com o olhar. Ele dá mais um passo, solta as malas, sem pensar. Pra quê servem os pensamentos num momento desse? Até os céticos teriam que concordar. Mas voltemos à cena. Ele a abraça e ergue do chão, começando a girar. Ela segura forte no pescoço dele, cruza suas mãos num nó que não quer desatar, que não devia nunca desatar. Olha nos olhos dele, vê o brilho deles e pede aos búzios, às cartas, às estrelas cadentes, aos orixás, que não se apague, nunca se apague o brilho do olhar dele, e que a verdade do sorriso dela não fique fosca, surda, muda. Que aquele momento seja eterno, que volte em todos os olhares de cada dia de cada briga de cada despedida de cada reencontro de cada noite, amém. Ele não consegue falar, não consegue juntar as palavras, obedecer a sintaxe, lembrar da gramática, como que se faz mesmo ? Junta o pronome pessoal, primeira pessoal do singular, o verbo amar na primeira pessoa, no presente, e o pronome, aquele, de tratamento, de tratar, tratar o outro, tratar bem o outro. Isso. E-u-a-m-o-v-o-c-ê, ele soletra no pensamento, e de alguma forma, a mesma frase ecoa na mente dela, como se já tivesse sido dita, quem sabe foi. Quer voar? Ele consegue sussurrar. Quero, depois que eu soltar o céu.


Clara Delfino

Ah, eu senti falta de ser doce... Peguei esse texto que tava quase pronto e mudei um pouco, ficou isso aí (:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Vejo gente idiota

Desculpa a demora absurda pra postar, os céticos diriam o óbvio, como esse é um blog de 'pensamentos' , vai ver eu não tenho pensado muito. Nunca se sabe... A verdade - fodam-se os céticos - é que eu tenho, mas são pensamentos muito... revoltados, muito violentos. Poxa, tem um país tentando se libertar de uma ditadura de uns 30 anos, e o meu país - que já viveu uma dessas - só consegue falar do BBB. Poxa, amores eternos aparecem mais rápido do que contas, e eu não aguento mais ver os motivos ridículos que só falam de beleza e de dinheiro (pra não falar na carência e no medo da solidão), como se o primeiro não fosse construção e o segundo não fosse passageiro. Vejo gente que desiste do amor e começa a 'pegar geral', dói menos, só deve doer na hora que vê um espelho, como sustentar o olhar ? Vejo comentários imbecis sobre um cara fantástico que sofreu um acidente e tá com risco de vida (Shaollin, só pra constar). Vejo gente mal-educada de graça, vejo gente ridícula. Vejo fanatismo. Vejo argumentos fracos. Vejo gente idiota, com frequência. Claro que eu conheço umas exceções lindas, na verdade conheço tantas que me acho muito, muito sortuda. Mas o resto ainda existe, e ainda me irrita. E não sei, acho meus textos revoltados tão... imaturos, talvez me falte conhecimento teórico pra criticar isso tudo, talvez me falte tempo pra amadurecer as idéias, talvez nem falte nada, só vontade.

Além do mais, tem os outros blogs e afins que eu escrevo de vez em nunca.
http://naocoubenosilencio.wordpress.com/
http://oqueoventonaoleva.blogspot.com/

e o tumblr que não tô afim de linkar, é isso aí, goodbye.

Só um recado

A uns dias atrás tava pensando no que traz mais felicidade, ou no que - por falta de um outro adjetivo melhor - é mais digno. Ter uma vida normal, seguindo as exigências da sociedade, como o Caiozinho (Caio F.) disse "ser hetero e casar aos 20", ou ter uma vida cheia de liberdade, viagens, loucas paixões, ausência de pudores e limites, e uma boa dose de melancolia e tristeza pelo mundo. Enfim, viver o mundo, entrar na roda, seguir os demais, ou pensar sobre isso e tomar suas próprias decisões, ignorando as críticas que vem de brinde. A minha opção sempre foi a segunda, sempre achei que um casamento - por exemplo - ia me tirar as inúmeras possibilidades que eu tenho, ia podar minha liberdade que ainda nem consegui por inteiro. Só que eu comecei a refletir sobre o fim... como tudo inevitavelmente acaba, qual seria o fim 'menos ruim', o do Caiozinho com um imenso conhecimento adquirido - que boa parte se perdeu - uma visão de mundo ímpar, uma DST e uma morte na casa dos pais, sem um alguém pra dizer ' depois vou pra lá, o mundo vai ficar um saco sem você' ou uma pessoa normal, que faz o que a sociedade manda e envelhece ao lado de alguém que ama e talvez o ame de volta. O bom seria poder fazer os dois, mas será que dá ? Amor e liberdade são excludentes?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Newton e coisas rasas

Nós humanos, temos a incrível capacidade de fantasiar. Sejam fantasias boas ou ruins, nós temos essa capacidade. Me lembro da única frase que me fez gerar algum tipo de sentimento útil que eu ouvi de um certo professor patético. Dizia basicamente que o homem, digo, a raça humana - Homo sapiens sapiens - conseguiu se diferenciar e predominar sobre as outras que existiam (Austrolopitecus, Neandertais etc etc ) por possuir uma capacidade que as outras não tinham: criatividade. Criatividade. Eu ainda acho que é o que move o mundo, e não o dinheiro, o petróleo, as guerras.
Eu acho criatividade essencial, mesmo, acho que ninguém lhe dá atenção merecida. Sem ela nós simplesmente morreríamos de tédio, sem ela o sentimento de que tudo que tinha que ser inventado já foi, as grandes músicas já foram escritas, os grandes músicos estão fadados a entrar em extinção, enfim, esse sentimento seria generalizado. E seria de uma desesperança absoluta.
Criatividade nos dá de brinde esperança , um escritor nunca escreve um livro por acaso, só pra deixar atirado embaixo da cama, sem mudar a vida de ninguém, inclusive a sua. Os músicos (ainda restam uns poucos bons) raramente vão querer guardar sua música só pra si, e inconscientemente vai se tornar trilha sonora do amor de alguém, da dor de alguém. Eu quando invento um passeio, uma tradição, um jogo, tô mudando a minha vida, mesmo que seja de um jeito insignificante, ou mesmo que seja pra pior, e de quebra, ainda altero a de alguém.
A criatividade nos livra da inércia, e como diria Newton na única frase de física que eu aplico na vida " Toda ação corresponde a uma reação", a criatividade, a força de vontade, a esperança ou até mesmo as obrigações diárias (universidade, trabalhar , etc etc) nos impede de ficar parado na frente de uma tv ou computador não fazendo nada muito útil, nada que nos dê lembranças fantásticas.
Ando acreditando nisso, ando valorizando cada tentativa, por mais inábil que seja. Me permito a tudo, menos à coisas rasas, pequenas, medíocres. Não brigo mais com a vida, sou cúmplice dela.

Clara Delfino

Hipocrisia não

Vem cá , fala pra mim que você é interesseiro, movido a sexo, e vendido aos hábitos da nossa sociedade, fala pra mim que você é mais um na multidão, que gosta de fazer parte dela, mas gosta ainda mais de se destacar nela, como o melhor, o mais bonito, o mais rico. Fala pra mim que todas as mulheres sucumbem a teu charme irresístivel. Fala, fala de uma vez! Só não fale pra mim que você é romântico e diferente e especial e qualquer outro adjetivo imbecil que não te descreve em nada, que enganaria a qualquer uma, mas não a mim. Seja ruim, seja podre, mas admita isso, eu suportaria tua falsa modéstia, teu narcisismo, tua falta de QI, mas hipocrisia não, pode dar meia-volta e refazer esse discurso.

Clara Delfino

domingo, 2 de janeiro de 2011

"Que seja doce"

Eu vejo o ano novo como um caderno novo, vai soar clichê, eu sei, mas o sentimento que eu tenho é esse, que às 00:01 de 01/01 me entregam um caderno em branco e uma caneta, e eu sei que por mais que eu não queira (e eu definitivamente quero) algo vai ser escrito ali, bom ou ruim, vai ser escrito. Não há muitas opções nesse caso, os dias correm (ultimamente numa velocidade assustadora e fantástica) e eu realmente não tô afim de contestar isso, de brigar com o relógio, de devolver o caderno em branco. Me tira o fôlego pensar em quantos livros fantásticos eu vou ler, em quantos abraços sinceros vou ganhar, em quanto vou amadurecer, em quantas pessoas vou conhecer, em quantos beijos intermináveis vou dar. Tenho sede de eternidades, as sentidas, não as prometidas ou planejadas. E o mais lindo disso, o que mais me assombra de encantamento é que não há medo, não há sequer aflição ou urgência, só há vida e basta, como basta!

Apesar de toda essa falação que não diz muito além de : 2011 ? Pode vim quente que eu estou fervendo. (IDSOIDOSIDOSIDOSIDOSIDS ignorem) Essa foi a primeira vez que eu vivi o Natal e a Virada de ano e não me senti nem no Natal nem na Virada de ano, eu simplesmente vejo o ano novo como uma continuação do velho e really, o ano velho foi fantástico. E eu entendo quem questiona isso, quem se recusa a ceder à mídia e às convenções sociais, e posso até dizer que no alto de sua racionalidade e dos seus ótimos argumentos eles estão certos, mas... porque eu não posso desejar coisas felizes às pessoas ? Em todos os dias do ano, é claro, mas num dia com luzes piscando e esperanças surgindo fica ainda mais bonito.

Clara Delfino