sábado, 24 de setembro de 2011

Confronto

Bateu, Amor à porte da Loucura.
"Deixe-me entrar, pediu, sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu a paixão"

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto o Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo, de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu".
Mais que ningém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu.

Enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de Amor"

Carlos Drummond

domingo, 24 de abril de 2011

Tous illusion


O dia amanhecia, e só sabia disso porque o sol gritava pelas frestas, cortinas, janelas. Não sabia quem era, e enquanto tentava lembrar se lembrou que ninguém sabia de verdade, porra, caralho, filosofia barata fica, mas não lembro meu nome? Olhou pras persianas vermelhas que deixava o quarto todo parecendo fogo, e sentiu o fogo queimando na garganta, um vestígio violento de álcool.
Tentou lembrar como foi parar ali, olhou pro corpo estático ao lado do seu corpo estático, tava vivo? Tocou no braço, quente, muito quente, é , tava vivo. Percebeu pelo cabelo comprido e pela batom vermelho estampado na face, nas fronhas, que era uma mulher. Tentou levantar, o gosto na boca de conhaque, uísque e cachaça, meu Deus até cachaça, pensou enquanto ia pro banheiro vomitar. O banheiro ele soube onde ficava, não sabia quem era, onde estava, mas o banheiro soube onde ficava.
Enquanto vomitava lembrava de umas cenas de um filme que viu faz tempo e não lembrava o nome, uma mulher e um homem atirando um ao outro contra a parede, Jet'aime monamour o homem dizia, e a mulher ria, ria, dizia algo que ele não lembrava direito, algo como tous illusion mon cher, não sabia, não lembrava, e o atirava contra a parede de novo, gemidos, carências, água escorrendo pelo corpo de um de outro, e uma vontade de que escorresse também as dores, os medos, tudo que não servia mais. Ergueu a cabeça, olhou ao redor viu que não era um filme antigo, era sua vida.
Olhou pra mulher desgrenhada no quarto, lembrou do sorriso dela, teu sorriso brilha mais que as pedras do El dorado, lembrou que disse, teus olhos que tem o brilho de marte e júpiter juntos, lembrou que ouviu. Lembrou que um amigo de um amigo apresentou, e desde então nada de banda, nada de amigos, nada de si, só lembrava do sorriso dela e das luzes.
Isso nunca aconteceu, nunca antes sorrisos-pedras-do-Eldorado, nunca antes sussurros em francês, nunca esqueci meu nome, o delas sempre, o meu nunca. Falando nisso, qual meu nome porra? Como que esqueci ? Depois tatuo na perna pra não esquecer nunca mais, digo que é prova de amor pra mim mesmo. Pensou em acordar ela e perguntar, mas que patético, perguntar meu próprio nome.
Decidiu então ir embora, sem destino, sem saber de si, cantarolou caetano sem lenço sem documento e foi em direção a porta. Parou e olhou pra ela, tão linda, alguns anos a mais, ele via, não se importou, tanta humanidade naqueles cabelos desgranhados, tanta leveza naqueles traços finos, naquela cintura estreita, tanta força naquele olhar, e aquela ar de quem já sofreu o bastante pra não acreditar em qualquer ilusão, protegida pela dor. Nada disso ele soube na hora, só quis ficar, quis abraçar ela e falar que não, nem tudo é ilusão ma cherie.
Chegou a fechar a porta e dar um passo em direção a ela de novo, lembrou que não sabia nem o nome, e que ela merecia mais que alguém patético o suficiente pra esquecer o nome. Descubro e volto, pensou ao sair.
O barulho da porta a acordou, ela abriu os olhos, lembrou do garoto da noite passada, qual mesmo o nome? João, João Henrique, nomes de rei, lembrou que disse entre um drink e outro. Chegou a falar de amor, lembrou, ensaiou até um francês. Como é bonita a inocência de quem acha que pode dar certo, que alguma coisa nessa vida dá. Pensei que esse ficava ao menos até o café da manhã, disse em um sussurro antes de fechar as persianas e voltar a dormir.

24/04/2011

sábado, 23 de abril de 2011

Tutto passa

Meu bem, meu bem, meu bem. Não dificulte tanto assim, não seja tão cruel ao olhar pro espelho, não dê tanta atenção a essa lágrima. Os monstros, eu sei, você continua falando desses monstros, eles não existem menina, não existem. Vem cá, deita no meu colo, é que dói muito, eu sei, dói muito. Mas passa menina, você acredita em mim não acredita? Tudo passa, você que tem olhos inocentes demais pra ver isso, mas nessa vida não há nada que permaneça, só coisas que partem. Não chore tanto assim, não se importe tanto assim, é porque as coisas passam que outras coisas podem vir. Eu mesmo, você lembra menina? Surgi na tua vida quando um alguém tinha partido, tá bom, tá bom, não falo dele. Não, não quero te machucar mais, não quero te machucar nunca. Então, o que eu tava dizendo? Ah, passa, sim, tudo nessa vida passa, tutto passa. Em outra vida não sei pequena, não sei, só guardo memórias dessa e já me tomam tempo demais. Pode chorar, pode secar tuas lágrimas nos meus ombros, não, não se importe, não me importo que me alugue com tuas dores, um dia você vai sentir até falta delas, vai dizer qualquer bobagem como não-me-sinto-mais-viva-preciso-sentir-alguma-coisa-nem-que-seja-dor. E eu vou rir com tua inocência dolorida de novo. Sim, eu sei, isso não é assunto pra agora. Vai ficar tudo bem, tutto bene, tudo bem, tudo bem, tudo bem... te digo quantas vezes precisar pra você me ouvir pequena. Durma, pode dormir, não se importe com o resto, eu fico, te cuido, te guardo.


(23-04-2011)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um devaneio qualquer


Me abrace, só me abrace. Não se importe com o antes-pra-sempre-depois-talvez. Me dê a mão, me leve para um lugar qualquer bonito que cintile de esperança, luz e cor. Toca no meu rosto, pescoço, corpo quadril, me sentencia um arrepio. Quero pensar que amor não é só um artifício pra disfarçar nossa incompletude, nossa incapacidade de ser feliz sozinho, nossos vazios. Quero pensar isso junto a você. Queria tanto que nossos pensamentos - antagônicos, diferentes, opostos - imitassem nossos corpos e se completassem, se encaixassem tão perfeita e loucamente que ficasse impossível notar onde começa um ou onde termina o outro, por se tratar do mesmo ponto inexorável eterno no momento exato em que acontece.

22/04/2011

Se ainda tem alguém lendo isso aqui, feliz chocolate pra você :*

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Coragem

Tava cá pensando com meus botões (que não existem, tô de vestido)... como ter um amor homossexual é sinal de coragem. Vê só comigo, além de enfrentar todas as coisas bem simples e fáceis de lidar que amar já implica, como sentir necessidade de uma outra pessoa que pode ou não sentir de você, ou ciúmes, ou saudades, ou todas essas coisas m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-s de sentir, e vocês sabem a que eu me refiro, o corajoso que topa um desafio desses ainda tem que enfrentar os olhares preconceituosos e patéticos da sociedade, e conviver com a idéia imposta por essa sociedade (considerando o mundo cristão) de que ele já tem seu lugar definido no inferno. E pensando assim, vendo essa coragem toda em ser o que se é, em ter verdade consigo mesmo e com o resto do mundo, o preconceito me parece ainda mais irracional.

Clara Delfino

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colocaram

Colocaram na tua cabeça que o oriental é retrógrado e violento, que o negro é ladrão, que o branco é preconceituoso, que a mulher é incapaz, que o nordestino é burro, que o feio não merece amor. Colocaram na tua cabeça que a paz não é algo que se constrói, e sim algo que surge do nada. Colocaram na tua cabeça que todo amor é eterno e que mesmo quando ele te joga na cara que não é assim, você tem que insistir em sofrer porque acabou. Colocaram na tua cabeça que todo fim dói (na minha também). Colocaram na tua cabeça que você deve amar ao próximo como a si mesmo, e você esquece o tempo todo que tem que ter essa parte de amor dispensada pra si, só ama o outro. Colocaram na tua cabeça que sexo é errado, mas guerra tem seus motivos (que valem mais do que vidas). Colocaram o inferno das culpas na tua cabeça. Colocaram uma porção de verdades absolutas na tua cabeça. Colocaram, inclusive, a idéia de que o mendigo só precisa de dinheiro, e que dispensar 5 minutos do teu tempo falando com ele colocaria em risco tua vida, como se viver já não resultasse em poder morrer. Colocaram na tua cabeça que ter um amor implica em não ter liberdade. Colocaram na tua cabeça que idéias prontas são melhores do que pensar e contestar as coisas, colocaram isso com um objetivo. Colocaram porque você deixou que colocassem.

Clara Delfino

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Câmera lenta

Ele olha pra ela. Ela olha pra ele. Câmera lenta, ninguém respira, um silêncio que se diferencia de outros silêncios, porque esse diz, e diz muito do que vai acontecer. Ela sorri, e lembra ocasionalmente de arrumar espaço pra respirar. Ele se aproxima - será que posso? Ela responde que sim, com o olhar. Ele dá mais um passo, solta as malas, sem pensar. Pra quê servem os pensamentos num momento desse? Até os céticos teriam que concordar. Mas voltemos à cena. Ele a abraça e ergue do chão, começando a girar. Ela segura forte no pescoço dele, cruza suas mãos num nó que não quer desatar, que não devia nunca desatar. Olha nos olhos dele, vê o brilho deles e pede aos búzios, às cartas, às estrelas cadentes, aos orixás, que não se apague, nunca se apague o brilho do olhar dele, e que a verdade do sorriso dela não fique fosca, surda, muda. Que aquele momento seja eterno, que volte em todos os olhares de cada dia de cada briga de cada despedida de cada reencontro de cada noite, amém. Ele não consegue falar, não consegue juntar as palavras, obedecer a sintaxe, lembrar da gramática, como que se faz mesmo ? Junta o pronome pessoal, primeira pessoal do singular, o verbo amar na primeira pessoa, no presente, e o pronome, aquele, de tratamento, de tratar, tratar o outro, tratar bem o outro. Isso. E-u-a-m-o-v-o-c-ê, ele soletra no pensamento, e de alguma forma, a mesma frase ecoa na mente dela, como se já tivesse sido dita, quem sabe foi. Quer voar? Ele consegue sussurrar. Quero, depois que eu soltar o céu.


Clara Delfino

Ah, eu senti falta de ser doce... Peguei esse texto que tava quase pronto e mudei um pouco, ficou isso aí (:

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Vejo gente idiota

Desculpa a demora absurda pra postar, os céticos diriam o óbvio, como esse é um blog de 'pensamentos' , vai ver eu não tenho pensado muito. Nunca se sabe... A verdade - fodam-se os céticos - é que eu tenho, mas são pensamentos muito... revoltados, muito violentos. Poxa, tem um país tentando se libertar de uma ditadura de uns 30 anos, e o meu país - que já viveu uma dessas - só consegue falar do BBB. Poxa, amores eternos aparecem mais rápido do que contas, e eu não aguento mais ver os motivos ridículos que só falam de beleza e de dinheiro (pra não falar na carência e no medo da solidão), como se o primeiro não fosse construção e o segundo não fosse passageiro. Vejo gente que desiste do amor e começa a 'pegar geral', dói menos, só deve doer na hora que vê um espelho, como sustentar o olhar ? Vejo comentários imbecis sobre um cara fantástico que sofreu um acidente e tá com risco de vida (Shaollin, só pra constar). Vejo gente mal-educada de graça, vejo gente ridícula. Vejo fanatismo. Vejo argumentos fracos. Vejo gente idiota, com frequência. Claro que eu conheço umas exceções lindas, na verdade conheço tantas que me acho muito, muito sortuda. Mas o resto ainda existe, e ainda me irrita. E não sei, acho meus textos revoltados tão... imaturos, talvez me falte conhecimento teórico pra criticar isso tudo, talvez me falte tempo pra amadurecer as idéias, talvez nem falte nada, só vontade.

Além do mais, tem os outros blogs e afins que eu escrevo de vez em nunca.
http://naocoubenosilencio.wordpress.com/
http://oqueoventonaoleva.blogspot.com/

e o tumblr que não tô afim de linkar, é isso aí, goodbye.

Só um recado

A uns dias atrás tava pensando no que traz mais felicidade, ou no que - por falta de um outro adjetivo melhor - é mais digno. Ter uma vida normal, seguindo as exigências da sociedade, como o Caiozinho (Caio F.) disse "ser hetero e casar aos 20", ou ter uma vida cheia de liberdade, viagens, loucas paixões, ausência de pudores e limites, e uma boa dose de melancolia e tristeza pelo mundo. Enfim, viver o mundo, entrar na roda, seguir os demais, ou pensar sobre isso e tomar suas próprias decisões, ignorando as críticas que vem de brinde. A minha opção sempre foi a segunda, sempre achei que um casamento - por exemplo - ia me tirar as inúmeras possibilidades que eu tenho, ia podar minha liberdade que ainda nem consegui por inteiro. Só que eu comecei a refletir sobre o fim... como tudo inevitavelmente acaba, qual seria o fim 'menos ruim', o do Caiozinho com um imenso conhecimento adquirido - que boa parte se perdeu - uma visão de mundo ímpar, uma DST e uma morte na casa dos pais, sem um alguém pra dizer ' depois vou pra lá, o mundo vai ficar um saco sem você' ou uma pessoa normal, que faz o que a sociedade manda e envelhece ao lado de alguém que ama e talvez o ame de volta. O bom seria poder fazer os dois, mas será que dá ? Amor e liberdade são excludentes?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Newton e coisas rasas

Nós humanos, temos a incrível capacidade de fantasiar. Sejam fantasias boas ou ruins, nós temos essa capacidade. Me lembro da única frase que me fez gerar algum tipo de sentimento útil que eu ouvi de um certo professor patético. Dizia basicamente que o homem, digo, a raça humana - Homo sapiens sapiens - conseguiu se diferenciar e predominar sobre as outras que existiam (Austrolopitecus, Neandertais etc etc ) por possuir uma capacidade que as outras não tinham: criatividade. Criatividade. Eu ainda acho que é o que move o mundo, e não o dinheiro, o petróleo, as guerras.
Eu acho criatividade essencial, mesmo, acho que ninguém lhe dá atenção merecida. Sem ela nós simplesmente morreríamos de tédio, sem ela o sentimento de que tudo que tinha que ser inventado já foi, as grandes músicas já foram escritas, os grandes músicos estão fadados a entrar em extinção, enfim, esse sentimento seria generalizado. E seria de uma desesperança absoluta.
Criatividade nos dá de brinde esperança , um escritor nunca escreve um livro por acaso, só pra deixar atirado embaixo da cama, sem mudar a vida de ninguém, inclusive a sua. Os músicos (ainda restam uns poucos bons) raramente vão querer guardar sua música só pra si, e inconscientemente vai se tornar trilha sonora do amor de alguém, da dor de alguém. Eu quando invento um passeio, uma tradição, um jogo, tô mudando a minha vida, mesmo que seja de um jeito insignificante, ou mesmo que seja pra pior, e de quebra, ainda altero a de alguém.
A criatividade nos livra da inércia, e como diria Newton na única frase de física que eu aplico na vida " Toda ação corresponde a uma reação", a criatividade, a força de vontade, a esperança ou até mesmo as obrigações diárias (universidade, trabalhar , etc etc) nos impede de ficar parado na frente de uma tv ou computador não fazendo nada muito útil, nada que nos dê lembranças fantásticas.
Ando acreditando nisso, ando valorizando cada tentativa, por mais inábil que seja. Me permito a tudo, menos à coisas rasas, pequenas, medíocres. Não brigo mais com a vida, sou cúmplice dela.

Clara Delfino

Hipocrisia não

Vem cá , fala pra mim que você é interesseiro, movido a sexo, e vendido aos hábitos da nossa sociedade, fala pra mim que você é mais um na multidão, que gosta de fazer parte dela, mas gosta ainda mais de se destacar nela, como o melhor, o mais bonito, o mais rico. Fala pra mim que todas as mulheres sucumbem a teu charme irresístivel. Fala, fala de uma vez! Só não fale pra mim que você é romântico e diferente e especial e qualquer outro adjetivo imbecil que não te descreve em nada, que enganaria a qualquer uma, mas não a mim. Seja ruim, seja podre, mas admita isso, eu suportaria tua falsa modéstia, teu narcisismo, tua falta de QI, mas hipocrisia não, pode dar meia-volta e refazer esse discurso.

Clara Delfino

domingo, 2 de janeiro de 2011

"Que seja doce"

Eu vejo o ano novo como um caderno novo, vai soar clichê, eu sei, mas o sentimento que eu tenho é esse, que às 00:01 de 01/01 me entregam um caderno em branco e uma caneta, e eu sei que por mais que eu não queira (e eu definitivamente quero) algo vai ser escrito ali, bom ou ruim, vai ser escrito. Não há muitas opções nesse caso, os dias correm (ultimamente numa velocidade assustadora e fantástica) e eu realmente não tô afim de contestar isso, de brigar com o relógio, de devolver o caderno em branco. Me tira o fôlego pensar em quantos livros fantásticos eu vou ler, em quantos abraços sinceros vou ganhar, em quanto vou amadurecer, em quantas pessoas vou conhecer, em quantos beijos intermináveis vou dar. Tenho sede de eternidades, as sentidas, não as prometidas ou planejadas. E o mais lindo disso, o que mais me assombra de encantamento é que não há medo, não há sequer aflição ou urgência, só há vida e basta, como basta!

Apesar de toda essa falação que não diz muito além de : 2011 ? Pode vim quente que eu estou fervendo. (IDSOIDOSIDOSIDOSIDOSIDS ignorem) Essa foi a primeira vez que eu vivi o Natal e a Virada de ano e não me senti nem no Natal nem na Virada de ano, eu simplesmente vejo o ano novo como uma continuação do velho e really, o ano velho foi fantástico. E eu entendo quem questiona isso, quem se recusa a ceder à mídia e às convenções sociais, e posso até dizer que no alto de sua racionalidade e dos seus ótimos argumentos eles estão certos, mas... porque eu não posso desejar coisas felizes às pessoas ? Em todos os dias do ano, é claro, mas num dia com luzes piscando e esperanças surgindo fica ainda mais bonito.

Clara Delfino

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Corda bamba


Seja sensual, não demais ... seria vulgar , não de menos ... não quer ser uma puritana sem graça. Seja original, diferente, mas não bizarra. Seja feliz, mesmo que doa (ninguém se importa muito com nada além de si mesmo), e lembre-se sempre: não seja muito, não seja pouco. Seja inteligente, nada muito acentuado, nada de ser a nerd sabichona, mas inteligente sim, o suficiente pra não fazer ninguém passar vergonha, as pessoas não gostam de andar acompanhado de uma 'porta', pega mal, entende ?
Ah, e os atributos físicos então ? Tenha seios bonitos , não muito grandes , não muito pequenos , na medida. E isso vale pra barriga, pra bunda - acredite -, pra coxas , pra quadris, pra boca, pra QI. Tudo é passível de julgamento, tudo tem que estar na medida. Na medida de que ? - perguntam. Do que estabeleceram - respondo. Quem estabeleceu? - perguntam. Não faço a menor idéia - encerro.
Variando de lugar pra lugar , de sociedade pra sociedade e , ocasionalmente, de indivíduo pra indivíduo, os estereótipos se formam e de repente são uma exigência, pressupõe-se que você seja inteligente, engraçada, simpática e bonita, tudo na medida certa, na quantidade suficiente e ai de você se não for.
A verdade é que todos nós dessa sociedade manicomial, desse grande circo sem muita graça, andamos na corda bamba. Na busca de uma aparência perfeita, de um amor perfeito (pros poucos que ainda acreditam) , de um relacionamento perfeito, de uma carreira perfeita... e assim vai. Uma sociedade que se veste de democracia, se enfeita de um falso respeito à diferença e se cobre de um moralismo hipócrita, é nessa sociedade que vivemos, é isso que criamos. Um mundo em que tem de tudo em abundância, menos verdade.

Clara Delfino

Oi pessoas (que eu não sei se realmente existem),

Me deu vontade de retomar esse blog que já tinha ficado esquecido num cantinho da minha memória , enfim , aqui estou. Primeiro talvez seja bom explicar porque eu abandonei , porque eu sumi . Entre milhares de provas , e aulas , e festas , e coisas - das mais variadas possíveis - ficou difícil manter qualquer vida 'virtual', o único que eu ainda manti foi o fotolog , acho que mais pela possibilidade de ser um registro dos dias loucos , lindos e passageiros (como todos os outros) que vivi . Enfim , agora eu tô de férias e essa desculpa não deveria caber tanto , mas ainda cabe muito , me sobra muito pouco tempo pra tudo que eu quero assistir, ler , escrever, falar, fazer , mas vou tentando , quem sabe eu consigo ? O outro motivo, e esse pra mim sempre foi muito digno e válido, mas hoje me parece bem idiota, é que meus textos quase sempre falaram sobre amor (ou desamor, como diria a Yasmin) e eu cansei, cansei de ficar pegando um filete de sofrimento e transformando em pequenas cartas suicidas, cansei de culpar pessoas, e principalmente, cansei de me culpar. Há tanta coisa melhor pra fazer , eu descobri que há. Então aconteceu uma coisa estranha, quando eu fiquei longe desse drama todo, desse chororô todo, ele também passou a querer distância de mim, e daí me descobri feliz de novo. É fantástico o que descobri com isso, fantástico e óbvio : medo tem medo de coragem. Enquanto eu tinha medo do medo ele se fortalecia, quando eu fui indiferente ele deixou de existir. Outra coisa legal que aprendi nesse tempo... é que (quase todos) sentimentos só existem se nós permitimos, o que é fantástico. Ontem eu li uma frase que falava disso... Nós, os humanos, temos essa horrível e maravilhosa capacidade de sofrer pelo que não existe, do Rubem Alves , acho que foi isso que eu fiz , me apeguei tanto a uma dor que nem existia que um dia acabei por perceber que estava agarrada ao nada, e percebi ainda mais ... que fazia isso por puro tédio, por puro medo (again) de não sentir mais nada. Eu não imaginei que esse texto ia por esse caminho mas , whatever, eu vim aqui pra dizer que mudei - completamente - a temática desse blog , ainda escrevo (muito raramente) textos de amor e (e muito mais raramente) de desamor, mas eles não me interessam muito, e se aparecerem por aqui serão minoria. Basicamente isso aqui vai ser pra eu registrar uns pensamentos grandes que andam me ocorrendo, no ritmo que eu ando mudando seria bom um registro de algumas das coisas que passam pela minha mente e vida. Não sei se alguém vai ler e, sinceramente, não me importa tanto assim, é mais uma forma de falar o que não cabe no silêncio, e que me sufocaria se eu não falasse, tenho medo de sufocar no que não foi dito. Enfim , já tô ficando literária demais again, melhor encerrar por aqui. A esse respeito... eu não vou medir muito minhas palavras então, se incomodar a alguém faça-se o favor de parar de ler e viver sua vida.

Enfim, ciao.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

faxina

Hoje andei revendo meus conceitos , dando uma atenção mínima a essa bagunça que tá dentro de mim, a essa soma de sentimentos confusos e contraditórios que acabam por se anular, sem de nada me servir . Olhei cada pequeno amor , e vi que nem coladoumnooutro iam me fazer alguma diferença , e já que não me acrescenta eu descarto né ? É, é melhor, é como aquele livro que eu sei que nunca vou ler, simplesmente porque não me conquista pela capa e prefácio, é como aquele cantor que não importa as indicações, eu não vou baixar, não é o momento. Olhei um outro tipo de amor, o próprio, o que me ajuda no momento em que o espelho me critica , o que me levanta quando eu deixo um dos amores pequenos ficar maior que eu, me engolir e me maltratar, que amor feliz é esse! Que amor raro de se ter ! Por isso eu arrumei um espaço grande pra esse que ignorei por tanto tempo. No meio de todos aqueles textos e sentimentos amotoados eu não consegui deixar de ver uma espécie de bicho-papão encolhido no canto da sala , não precisei pensar pra reconhecer , era o medo . Olhei pra ele com atenção, ele olhou pra mim, me implorando pra ficar, me disse que sempre me serviu, sempre me ajudou, chegou até a dizer que me trouxe até aqui. O olhar dele dava pena, revirei umas fotos de um álbum que tava na minha mão e olhei praqueles sorrisos, praquelas festas e abraços e beijos e noites inesquecíveis, olhei pra ele de novo , olhei de volta pras fotos, ele não estava lá , e fazia todo sentido , por que ele estaria ? Se esse tempo todos se me barrou, só me impediu de arriscar, de viver, de ser feliz . Me aproximei como se fosse lhe abraçar, e disso serviu o mínimo estoque de falsidade que eu tinha, o segurei pela nuca e o joguei pela janela , do último andar de mim, e que a queda seja dolorosa. É , por ora me sinto mais organizada sim, vejo a felicidade flutuando por aí e tenho certeza que fiz um bom trabalho . Depois eu volto pra matar a saudade, ela que se prepare.

clara delfino

domingo, 24 de outubro de 2010

À Pátria Amada

Salve, salve. Como está? Melhorou?As notícias que recebo de seus filhos não são boas, mas sei que você é forte e há de vencer mais essa. Tantas crises e traições seguidas devem estar abalando você, mas saiba que é amada, idolatrada e jamais será abandonada.Pátria minha, posso ser sincera com você?Você é rica, gentil e generosa, mas dá muita bandeira, por isso abusam da sua boa vontade. Aproveitadores prometem servi-la e roubam de seus cofres. Covardes juram protegê-la e atiram em sua gente pelas costas. Falam besteiras em seu nome, debocham de seus defeitos, sonegam o que lhe devem.Por outro lado, você nunca esteve tão livre. Tão respeitada pelas colegas. Sua beleza e sua simpatia sempre foram reconhecidas, mas agora elogiam também sua inteligência e seu bom gosto. Copiam o que você veste, querem saber a fonte da sua energia, até depilam-se à sua maneira.Portanto, querida, talvez seu problema seja mesmo de auto-estima. Você é virginiana, de 7 de setembro, certo? Então está sempre desconfiada e insegura. Não consegue tomar decisões e, muitas vezes, foge às responsabilidades.Assuma, Pátria, que você é legal, mas vacila. Aprenda a punir quem abusa de seus favores e a tratar bem quem procura seus serviços. Afaste-se dos puxa-sacos e abrace seus desvalidos. Seus verdadeiros amigos não estão nos banquetes em sua honra, mas nos bobocas que calçam chuteira com você. A hipocrisia, maldita praga que seu ardor atrai, é a raiz dos seus problemas.Mas, calma, tudo tem jeito, você já resistiu bravamente a dias piores. Quando nem se sabia quanto roubavam de você. Quando sujavam seu nome em porões de tortura. Quando seu dinheiro valia tão pouco que era motivo de piada.E hoje, Pátria, você não carece de grandes atos de heroísmo, mas de pequenos gestos de respeito. Não precisa de novos salvadores, mas dos velhos sobreviventes. Inspire-nos a ver que não somos coitadinhos, somos até sortudos. Vemos tornados, terremotos e bombas terroristas pela televisão. Moramos de frente para a praia, com o mais verde quintal do mundo. Se temos a corrupção como mal encruado, que seja essa a nossa luta. A grande batalha que venceremos em seu nome.Freud disse: "Primeiro, olhe bem as profundezas da sua alma e aprenda a saber quem você é; depois, entenda o que há de errado com você". Cazuza fez uma música dizendo a mesma coisa, lembra?Por mim, você abandonava de vez esse positivismo cafona, que um dia lhe impuseram como lema. Não é pela ordem que seus filhos se destacam pelo mundo, é pela bagunça e festa. O progresso? Vem naturalmente quando se vive em paz, num ambiente fértil. Se é necessário um mote para completar a lacuna, que o escolham de onde sua alma se manifesta: nos pára-choques de caminhão.Já imaginou? Você de verde e amarelo e, na faixa, em sua testa estrelada, escrito assim: "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho". Ou simplesmente: "Existo porque insisto". É atrás da pompa dos palanques que se escondem seus inimigos.

Com amor, Fernanda Young

terça-feira, 5 de outubro de 2010

-


Você me treinou tão bem . Todos aqueles jantares à luz de velas sozinha , todas aquelas viagens com apenas o fone de ouvido de companhia , todos aqueles planos adiados para talvez , para nunca , todos aqueles sonhos que você não me deixou sonhar . Todas as cartas que te escrevi fazendo o percurso curto e doloroso do meu caderno até a lata do lixo , isso é besteira , você ia dizer .

Tava bem claro , todas aquelas tuas conversas indiferentes , finais , premonitórias . Estava escrito que seria assim , você escreveu . E não serviu , toda sua frieza , indiferença e egoísmo não me afastaram , todo o treinamento se mostrou inútil .

Sinto sua falta como se você fosse presente antes de partir , como se as cartas tivessem sido entregues , as canções ouvidas , as palavras ditas . Teu treinamento não só não serviu como teve efeito contrário , tua ausência é tão concreta que já não é , você tá mais presente do que jamais foi , tua falta não me abandona mais .

Clara Delfino

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

só


Eu só quero alguém que pense em mim antes de dormir , e antes de acordar , e antes de sorrir e antes de querer . Cansei de meios-amores , de relacionamentos não classificáveis , de amizades com desejo , e amores com companheirismo , cansei de perguntas , quero respostas , e não me venha com a verdade é relativa ou outro qualquer pensamento hipócrita , quero coisas concretas e quero agora . Eu só quero alguém que olhe nos meus olhos e não precise dizer mais nada , mas mesmo assim diga , alguém que me tire desse caos , alguém que me faça sentir especial , quero alguém que me tire o fôlego , e que não precise se esforçar pra isso , alguém que me estremeça a alma , alguém que entenda minha urgência de vida , alguém que me dê um ombro pra chorar , uma boca pra beijar e um motivo pra existir .
Clara Delfino

domingo, 3 de outubro de 2010

Ela tem aquele gosto doce de menina romântica e aquele gosto ácido de mulher moderna.

uma cena qualquer

Sábado de manhã , longa noite de sexta , noite que não acabou . Um homem e uma mulher sentados numa mesa de uma lanchonete qualquer , depois de ter passado a noite sentado em outra mesa de um bar qualquer . Palavras trocadas . Ela se irrita , se levanta , o estapeia - não como cena de filme , entenda bem , ela lhe deu aquele tapa com a mínima elegância e dignidade que a raiva dela lhe permitiu - e sai . Silêncio . Ela pega um táxi , lágrimas escorrendo , maquiagem manchada , último trocado gasto naquilo , que noite horrível . Ele continua sentado , imóvel , indiferente , ela e mais uma a caminho do banheiro , foi uma noite razoável , faz os cálculos , nem gastou tanto . Ela chega em casa , não consegue colocar a chave na fechadura , treme , de raiva , de amor , de ódio . Ele chama um garçom , mais uma dose , olha pras pessoas da mesa , começa a falar de política . Ela entra , joga o salto pra um canto e chora , amargamente , sente que vai passar o dia todo assim , sente certo . Ele combina de ir pra uma chácara mais tarde , muitas mulheres , ouviu falar . Ela o ama - nunca ouviu falar de amor próprio , talvez em um daqueles livros auto-ajuda que tem ? não sabe , prestou atenção não - ele se ama - nunca ouviu falar de amor .

Clara Delfino